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"Tão simples assim, como em todas as nossas ancestrais. Tão simples
assim... foi anunciada a gravidez à mãe de Jesus, pelo anjo Gabriel, e ela
se pôs à disposição na música de Haëndel no oratório Magnificat: "quia fecit
mihi magna, et santum nomen eios, qui potens est".
Tão simples assim os hormônios se conjuminaram, a barriga se arredondou, o
médico disse: vai ser em torno do dia 5 de agosto, a índia velha falou: vai
ser no quinto dia da virada da lua, tão simples assim.
E todos nasceram iguais, de cabeça para baixo, ou primeiro os pés para os
céus, mas quando crescidos alguns teimam em ter os pés nas nuvens e a cabeça
no céu... e outros os pés na terra e a cabeça no céu... cada um é cada um.
A mãe sonha: se for menino, vai ser doutor, pianista, presidente da
república, operário, cantor do Coral da Fundação, e seu nome vai ser
Antonycleidson Milord da Silva; se for menina será Gizelle Bünchen Sinatra
Bin Laden "da Silva", não, não, vai ser o nome daquela vizinha tão certinha
e caladinha, não, não, será o nome sonoro e moderno como uma personagem da
novela das 20h, Flora Donatella... o pai bate o pé que tem que ser
Clemenciana, em homenagem à avó...
Tão simples assim a cabeça desponta para fora... um se torna dois, um seio
farto e aconchegante na primeira refeição e o abraço de mãe protegendo-o do
mundo.
Tão simples assim... tão humano assim... tão velho assim e atual assim."
Attilio Carattiero
Há pouco
tempo assisti a um concerto em minha cidade. No repertório, entre outras peças,
foi executada a Sinfonia Concertante para violino e viola de Mozart. Os solistas
eram talentosos e bem treinados e o resultado aproximou-se muito da perfeição.
Palavra dura esta, ideal perseguido diariamente pelos que se dedicam a tocar um
instrumento musical, mais ainda se a área de atuação for a música erudita.
Ouvimos gravações feitas em estúdios, em diversas tomadas e com
colagens e retoques que se apresentem necessários para que a perfeição seja
atingida. O som dos instrumentos é captado pelos mais modernos e sensíveis
microfones e se a sala não
oferecer os recursos acústicos ideais, é possível acrescentar a ambiência
desejada por meio de avançados softwares. Nada de errado por enquanto, pelo
menos no que diz respeito a registros. A música erudita, dentro de seu rígido
formato, oferece menor possibilidade de improvisação e devaneio que a música
popular, mas ainda assim há espaço para a impressão da personalidade de seus
executantes. O que vi naquele concerto e em tantos outros a que tenho assistido
foi a impessoalidade, a eliminação da imprevisibilidade, a absoluta falta de
entrega emocional em função do controle técnico, a primazia da homogeneidade,
enfim, a destituição de qualquer traço de humanidade diferenciador.
Arte?
Ficou nítido
também que os executantes não estavam tendo PRAZER, embora suas habilidades técnicas
tenham ficado mais que evidentes e a PERFEIÇÃO almejada tenha sido atingida.
É provável que outro espectador do mesmo concerto me considere louca.
Infelizmente vejo um futuro onde seremos facilmente substituídos por
sintetizadores, que estão cada dia mais próximos de reproduzirem exatamente o
timbre de nossos instrumentos. Se a execução se aproximar de tal rigor matemático/perfeito,
nada impedirá que isso ocorra e que, pior, nem notemos a diferença. Por medo
de errar, estamos extirpando a humanidade do processo artístico, que perfeição
é essa que perseguimos? Por que acreditamos que o aprimoramento técnico e o
excesso de tecnologia definem o que é perfeito?
Assim também
vejo a maneira como a medicina moderna encara o nosso corpo:
uma máquina dividida em muitas peças, sujeitas a toda sorte de
problemas, de fabricação ou de desgaste, cada qual com seu técnico responsável.
Se uma das engrenagens funciona mal, procuramos o especialista formado nas
universidades após anos de estudo e prática, e obedecemos cegamente às suas
instruções.
Não tem
sido diferente em relação ao evento do nascimento. Qualquer aspecto humano é
simplesmente eliminado pelo técnico cirurgião de
útero quando este decide levianamente que o parto será uma cesariana.
TODAS as mulheres serão PERFEITAMENTE deitadas, amarradas, anestesiadas e
cortadas igualmente, num processo de linha de montagem de fazer inveja ao senhor
Ford. TODOS os bebês ficarão em observação no berçário, tal qual vitrine
de doceria, tomando leite artificial e chorando pela ausência de suas mães
impossibilitadas de cuidá-los. Nada admirável mundo novo...
Terá a
cultura da cesariana em nossa sociedade alguma relação com a perseguição do
ideal de perfeição? Penso que talvez, já que partimos do princípio de que o
que pode ser previsto e controlado tem mais chance de ser
“perfeito“. Também tendemos a considerar perfeito aquilo que
proporciona maior produtividade. Muitas cirurgias de nascimento realizadas
diariamente garantem eficiência à toda prova.
Como poderá
o técnico cirurgião de útero entender e respeitar a imprevisibilidade de um
trabalho de parto? Como poderá aceitar que não haverá padronização possível?
Como poderá encarar que existe PRAZER em parir? Como poderá concluir que o útero
faz parte de um todo PERFEITO chamado
mulher? Como poderá desistir de ser o protagonista para ser o coadjuvante?
Sempre me
pareceu estranho o termo humanização do nascimento, não fazia sentido para
mim "humanizar" algo que é intrinsecamente humano. Hoje compreendo o
significado absoluto desse termo e acho que não é apenas o nascimento que tem
sido comprometido pela "desumanização" em nossa sociedade, a arte também.
Caminhamos todos para o lodo da indiferenciação.
Após o
nascimento da Júlia, minha filha, de parto natural, entendi que aquele processo
foi o meu maior momento de criação artística. Sim, nada mais pessoal e impossível
de se repetir que o trabalho de parto, que exija tanta entrega e dedicação e
que possa trazer à tona o que de mais profundo, instintivo e essencial reina em
nosso ser, que nos aproxime de conhecer verdadeiramente nossos limites e o
potencial de superação dos mesmos. Enfim,
nada tão humano e perfeito em sua imperfeição. Roberta Marcinkowski
Mãe de Júlia (parto natural hospitalar) e Musicista
Poesia - Parto do Princípio (por Denise Ahrends)
Parto do Princípio
Porque parto com amor
É parindo que me reparto
E sempre me multiplico
Desde o princípio
Parto por inteiro
Com quem vier
Com quem me quiser
Parto com prazer
Parto do respeito
Por uma vida melhor
Parto porque acredito
Que um bom parto é possível
Parto com amor
E por amor vou partindo...
... e parindo