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Relato de parto de Thais Saito– Nascimento de João

Parto após cesárea domiciliar, demorado, assistido por duas doulas e três médicos, mas tudo deu perfeitamente certo no final. “Enrolou o dia inteiro pra nascer e, quando resolveu, foi pá-pum.” Relatos da mãe e do pai.

Logo depois da cesárea da Melissa, há um ano e seis meses, comecei a questionar o quanto tudo aquilo era necessário: “parto” com hora marcada, com reserva de sala, horas de observação e recuperação isoladas – tanto eu, quanto ela – remédios e mais remédios, injeções, médicos e enfermeiras entrando e saindo, dizendo o que fazer, quando fazer, como fazer.

Encontrei na internet, o blog do Parto Humanizado, a lista de discussão Parto Nosso, o site Amigas do Parto e, logo depois, a lista materna_sp. Comecei a ver o outro lado da coisa, achando tudo muito louco, muito pra mim. Mas descobri que poderia ter um parto normal, independente da cesárea, independente do tempo entre partos.

Não fazia questão de um parto natural domiciliar, nem nada. Só queria um parto normal.

Eu e o Angelo decidimos que não queríamos criar nossos filhos em São Paulo. E ele foi pra Belo Horizonte. Alugou um apartamento e logo estávamos eu, ele e a Melissa em Minas. Lá, já tínhamos uma idéia sobre parto em casa e sabíamos que queríamos.

Logo que chegamos em Belo Horizonte, procuramos a Alessandra, doula de lá. Conversamos bastante, começamos a freqüentar as reuniões da ONG Bem Nascer.

Quando a Melissa tinha 8 meses, começamos a tentar engravidar. A Melissa é tão doce, tão meiga... E merece um irmão. Dois filhos de idades parecidas, brincando juntos... Quer mágica maior? Não sabíamos quanto tempo demoraríamos pra conseguir, já que a Melissa tinha sido um acidente (lindo, por sinal). E engravidei em menos de um mês.

Procuramos a enfermeira obstétrica indicada pela Alex, mas ela disse que só daria pra saber na hora do parto, que o tempo entre partos era muito curto. Tentamos fazer o pré-natal com ela, na Casa de Parto, mas não me aceitaram. Aí, começamos a procurar um médico, mesmo que tivesse que ser um parto natural em hospital. Fomos em um indicado pela ONG. Ele deixou claro que seria cesárea, porque a cesárea da Melissa isso e aquilo. E, claro que mandou desmamar a Melissa. Aquilo me deixou acabada, desesperada. Fora os enjôos horríveis. Sentia muito enjôo.

Resolvi que ia pra São Paulo, ficar com a minha mãe, já que não comia nada: tenho pressão baixa e desmaiei várias vezes na primeira gravidez. Tinha medo de desmaiar cuidando da Melissa.

Em São Paulo, nem cogitei procurar outro médico: fui direto ao consultório do Dr. Jorge Kuhn. Amei, desde a primeira consulta. O Angelo ligou logo depois da consulta e eu contei tudo, super excitada. Agora, a carruagem ia andar.

Depois disso, o Angelo foi junto a todas as consultas, assim como a Melissa. O Dr. Jorge sempre dizia todos os riscos, mas sempre deixou claro o quanto cada uma era rara (ou não) e que era praticamente certo que tudo daria certo.

No final da gravidez, começamos a ter consultas metade com o Dr. Jorge, metade com a Dra. Mema. Enfim, chegamos às 38 semanas. Já tínhamos tudo pronto: todo o material pro parto, o enxoval, tudo. Só faltava o João.

Terça-feira, dia 30/03, comecei a ter contrações de noite. Bem regulares. Achei que fosse a hora. Mas só serviu pra eu não dormir. De manhã, elas pararam. Fiquei desanimada, mas achei que era um sinal de que tudo ia começar. E esse ritual se repetiu por mais vários dias. Uma semana, certinho. As contrações vinham de noite, cada dia mais fortes, sempre regulares. Ficava a noite toda acordada por causa da dor. O pior é que eram contrações regulares, durante toda a noite. Mas de manhã, elas paravam completamente.

No domingo (03/04), já achamos que era demais. Estava com contrações desde a madrugada. E elas não passaram de manhã. Ligamos pro Dr. Jorge e ele pediu pra que fôssemos à Santa Casa, ver se estava em TP. Não estava: colo alto, grosso, posterior, 1 dedo de dilatação. E nenhuma contração, do momento em que entrei no corredor de espera até entrar de novo no carro.

E o tempo foi passando. Com 40 semanas e 3 dias (04/04) o tampão saiu. Foi uma alegria só, apesar de saber que ainda poderia demorar.

Mas, TP, mesmo, nada. Já estava irritada, achando que nunca entraria em TP. Ou que o João fosse nascer do nada. E, claro, morrendo de medo. Como sou Strepto B +, precisava tomar antibiótico, então precisava de um TP, pelo menos, de 4 horas.

Dia 05/04, terça-feira, as contrações estavam muito fortes. Eu precisava ficar de quatro e só conseguia dormir assim, entre as contrações. Não deixei o marido ir trabalhar. Mas, claro, elas diminuíram em ritmo. E a gente desanimou, de novo. Mas, aproveitamos pra curtir o momento e a filha: fomos à padaria, a pé. Um caminho que, geralmente, dura 20 minutos, ida e volta, demorou 40. E rendeu uns 15 tombos da pequena. Jantamos no Outback Steak House, pedimos os pratos mais ardidos, pra ver se ajudava, ficamos os três de bobeira o dia todo.

De noite, lá pra meia noite, estava lendo os e-mails do dia. Inclinei pra frente pra pegar a água que estava na escrivaninha e senti um jato. Nada muito forte, mas a bolsa tinha estourado, finalmente. Ruptura alta, mas estava lá, a água com pedaços brancos, tipo água de côco. Só fiquei meio na dúvida porque não senti o cheiro de cândida que as pessoas sentem. Nem eu, nem o marido.

Mas sabia que era a bolsa e ligamos pro Dr. Jorge. Ele pediu pra irmos ao pronto-socorro, tomar a injeção de antibiótico e ligar pra Ana Cris, assim que voltássemos pra casa. No PS, a enfermeira só deixou eu sair com o jelco (uma coisa que fica com um cano na veia, pra poder injetar o antibiótico sem precisar furar toda a vez) porque prometi que voltaria com o médico, pra ter o bebê. Hehe.

Ana Cris chegou em casa rápido, antes das 3:00 da madrugada. Dr. Jorge, Dra. Mema e Dra. Andréa chegaram logo depois. Eu ainda estava com contrações extremamente suportáveis. Uma ou outra era meio forte, mas nossa... Nada comparado ao que viria. E continuaram vindo.

Já era de manhã e a Melissa ainda não tinha dormido. O Angelo foi colocá-la pra dormir, enquanto eu ficava na sala, ouvindo a conversa do pessoal. Conversando, Ana Cris (doula) e Dra. Mema chutaram a dilatação do meu colo: Ana chutou 5 cm e dra. Mema chutou 7 cm. Dr. Jorge não quis palpitar. Eu quis ir ao banheiro e, quando estava saindo, o Angelo me contou que a Dra. Mema disse que achava que eu já estava com dilatação total. Claro que eu fiquei feliz. E esperançosa. Mas estava achando tudo muito fácil...

Esperamos até às 9:00 da manhã. Eu ainda não sentia as contrações muito dolorosas, não sentia pressão, nem vontade de evacuar. Dr. Jorge pediu pra Dra. Mema fazer o toque. E lá fomos. Deitei na minha cama, do lado da Melissa (que estava dormindo) e a Dra. Mema começou. Ui, que ruim. Como incomoda, o toque. E a notícia: 7-8 cm, ainda alto, com bolsa. E ficamos esperando contração. Mas nada... Não sei quanto tempo fiquei deitada, esperando uma contração. A Ana Cris (doula) pediu pra eu fazer força quando viesse uma contração. Eu bem que tentei, mas acho que quase não fiz nada.

Resolvi dar uma passeada pela casa. Eu e o Angelo demos várias voltas pela casa. Nossa, as contrações pós-toque são muito piores. Durante uma hora, mais ou menos, quando vinha uma contração, eu tinha que me apoiar em algum lugar e esperar passar. Mas ainda estava sossegado. Andei, pulei, dancei, rebolei... Não sei quanto tempo durou a minha caminhada, mas cansei. Cansei, bastante...

A equipe resolveu sair pra tomar um café da manhã legal, já que aqui em casa a gente não tinha nada além de leite, torrada e bolacha recheada. Nem café a gente sabe fazer. Uma coisa viu...

Eu continuei com as contrações fracas, dei umas cochiladas entre as contrações, de quatro, apoiada no sofá, no colo do marido.
Um pouco depois do meio-dia, resolvemos fazer outro exame de toque. Exatamente a mesma coisa. Dra. Mema pediu pra Dra. Andréa confirmar. Ainda 7-8 cm, bebê alto, bolsa. Mas a Dra. Andréa disse que o bebê estava defletido grau 1. Parece que o queixo dele não estava encostado no peito, como deveria.

O Angelo brincou que o moleque só ia nascer de noite, porque eu só sentia contrações de noite, antes de estourar a bolsa. Gracioso... Então, Dra. Mema e Dra. Andréa saíram pra almoçar, enquanto Ana Cris (doula) e Dr. Jorge ficaram em casa de “plantão”. Dr. Jorge me disse pra relaxar e tentar dormir um pouco. Acho que dei umas cochiladas de quatro, de novo, apoiada na cama. Não lembro com certeza. Sei que fiquei no quarto, bem quieta. Ficar isolada me ajudava a concentrar nas contrações.

Comecei a cansar e resolvi entrar no chuveiro. Era muito gostoso. Ajudou muito. Fiquei lá por quase duas horas. Ficava alternando entre o banquinho de cócoras do Dr. Jorge e ficar de pé, deixando a água bater na barriga e nos ombros. Como a sensação da água batendo ajuda...

Saí do chuveiro e voltei pro quarto, apoiando na cama. A Ana chegou e encheu a bola, daquelas de fisioterapia, pra mim. Nossa, é muito legal, aquela bola! Dava pra relaxar legal. Só que eu já estava cansada e sentindo as contrações mais do que deveria. Já não conseguia relaxar muito. A Ana Cris ainda dizia que não sabia quando eu estava tendo contrações, porque eu não mudava nem a respiração. Mas eu já sentia muito mais.

Fiquei lá no quarto por horas e horas, até o terceiro exame de toque, só que dessa vez, feito pelo Dr. Jorge. Resultado, 8 cm, bebê alto, ainda tinha uma bolsa. Dra. Andréa sugeriu estourar a bolsa, mas como o João ainda estava alto, Dr. Jorge achou melhor não. A ocitocina também foi descartada por causa da cesárea prévia. A Ana perguntou sobre alguma coisa que poderia estar bloqueando o desenrolar do parto, mas eu não tinha a mínima idéia. Não conseguia pensar em nada.

Dra. Mema me disse pra relaxar e ter paciência, que ele ia nascer. Que eu não precisava me preocupar com eles, porque eles não estavam com pressa.

A Ana Cris teve a maravilhosa idéia de chamar a Dorothe, me perguntou se eu aceitaria tentar uma indução com acupuntura. Aceitei na hora. Já estava sentindo bem as contrações, estava cansada, a Melissa estava ficando chatinha. Mandei o Angelo pedir umas pizzas, porque todo mundo estava com fome, né? Decidiram esperar a Dorothe pra escolher o sabor.

Então, voltei pro meu mundinho. A Ana e o Angelo ficavam fazendo massagem nas minhas costas durante as contrações. Na verdade, não lembro muito bem se era a Ana ou a Dra. Mema, mas tinha alguém lá.

A Dorothe chegou, um pouco antes das 21:00. Eu mandei o Angelo pedir a pizza. Fomos pro quarto e ela me disse pra deitar do jeito que fosse mais confortável. Não tinha uma posição confortável, mas deitei de lado. Ela me explicou que ia não só colocar as agulhas e deixar, mas que ia dar uma mexida nelas, que ia ser meio incômodo. Sem problemas, eu agüento. Ela começou. Foi uma agulha em cada mão, uma em cada pé, uma na barriga e uma em cada perna. Colocar as agulhas não foi nada. Nem quando ela começou a mexer as agulhas. Nas mãos, doía, mas nada absurdo. Na barriga, quase não senti. Nas pernas, também, não. Mas nos pés... Jesus... Quando vinha uma contração, a Dorothe parava, lembrava que eu tinha que respirar. Esperava a contração passar e recomeçava.

Quando ela tirou as agulhas, as contrações já não estavam mais suportáveis. A intensidade acho que era a mesma. Mas elas vinham uma atrás da outra, duravam muito mais. Pelo menos era o que eu sentia. A Ana Cris e a Dorothe fizeram uma pilha com os três travesseiros que a gente tem em casa (heheheh) e com o edredom pra eu me apoiar durante as contrações. Alguém fazia massagem nas minhas costas.

A pizza chegou e o pessoal foi comer enquanto eu fiquei com o Angelo no quarto. Ele fazia massagens nas minhas costas, mas eu não estava agüentando. Era muito dolorido, eu estava cansada. A Dra. Mema chegou e disse pro Angelo ir comer, que ela ficava comigo. Ele não foi. Pedi pra entrar no chuveiro, depois de duas contrações. O Angelo ligou o chuveiro, arrumou o banco de cócoras e o banquinho que ele usa pra dar banho na Melissa.

Eu entrei no chuveiro esperando um milagre, mas as contrações continuaram insuportáveis. O Angelo entrou junto, fazia massagens. Lembro que, uma hora, eu acho que dormi. Estava muito cansada e apoiei na barriga do marido. Ainda bem que ele tem aquela barriguinha... Só acordei na contração seguinte.

Estava com muuuuuita dor, muito mais do que eu imaginei que sentiria. Eu arranhava as costas do Angelo, mordia os ombros, chorava. Eu não estava agüentando. Via o desespero nos olhos dele, mas não conseguia confortá-lo. Eu chorava e pedia pra ele me ajudar. Até falei que ia pro hospital, que não queria mais aquilo, que queria a cesárea. Lembro de sentir medo de não dar tempo de fazer a cesárea.

Tentei fazer uma forcinha, pra ver se sentia o João. Comecei a sentir a cabeça dele descendo durante a força, mas logo subia. Fiquei com medo. Não conseguia fazer força suficiente. Alguém entrou no banheiro, perguntou se eu estava com vontade de evacuar. Eu estava, mas tinha medo de fazer força. Não lembro o que respondi. Chorava, pedia ajuda.

Queria levantar, mas o Angelo me segurava. Eu tentava levantar, ele segurava, eu ficava nervosa. Chutei o banco de cócoras umas 80 vezes. Acho que quebrei o banco do Dr. Jorge. E o box.

O Dr. Jorge chegou e pediu pra fazer um toque. Quando ele colocou a mão, acho que eu bati nele. Que coisa! Eu estava morrendo de dor, querendo a cesárea e o homem querendo fazer exame de toque? Mas ele conseguiu. O Angelo me segurou e eu não consegui me soltar. 10 cm, mas bebê ainda alto.

Eu fazia uma forcinha de vez em quando, sentia a cabeça dele descendo. Uma hora, até coloquei a mão pra ver se já estava saindo, mas não sentia nada. O Angelo viu e tentou fazer igual, mas claro que ele apanhou.

Eu comecei a gritar. Não sei que horas, a Dorothe entrou, me deu a mão pra segurar. Falava que eu ia conseguir, que já estava no final. Dizia que eu podia fazer força, se eu quisesse. Eu não queria. Ainda não sentia os puxos. Mas fazia, pouca. Sentia a cabecinha descendo e voltando. Cada vez que eu fazia uma força, colocava a mão pra tentar sentir. Nada.

Alguém sugeriu que eu saísse do chuveiro, mas eu gritei, falei que não queria. Não saí. Estavam achando que eu não estava com “cara de expulsivo”. Continuava agarrando o Angelo a cada contração, chorava. No intervalo, pedia ajuda pro Angelo, pra Dorothe, pra Deus. Sentia medo. Medo. Estava desesperada. Até que comecei a gritar, quando vinha uma contração. Não sei como, nem porquê, mas ajudava. Eu precisava gritar. E eu achei que fosse ficar bem quietinha o tempo todo...

Dr. Jorge perguntou se eu tinha experimentado o banquinho. Angelo respondeu que eu dei cada chute no coitado... Estava de pé, apoiando a cabeça nos ombros do Angelo, que estava sentado (senão eu não ia alcançar os ombros dele. Heheheh).

Enquanto eu gritava, senti a cabeça do João descendo. E, dessa vez, não subiu. Continuei gritando e senti os ombros passando. E vi que ele tinha saído. Senti um alívio enorme. Tinha dado certo. Não sei ao certo quanto tempo durou o meu expulsivo, mas sei que foi muito rápido.

Depois me disseram que o Dr. Jorge disse pra Dra. Mema que eu estava arfando, fazendo barulho de expulsivo. E ele estava levantando pra pegar as luvas. Quando ele tentou levantar, o João saiu. Ploft. E só deu tempo do Dr. Jorge colocar a mão embaixo pro menino não cair no chão do banheiro. Simples assim. Enrolou o dia inteiro pra nascer e, quando resolveu, foi pá-pum.

Dr. Jorge pediu pra eu sentar no banco, enquanto ele segurava o João. Eu não conseguia. Estava com medo de tentar sentar, cair, puxar o menino pelo cordão, sei lá. Só consegui sentar depois que o Dr. Jorge entregou o João pro Angelo.

Não conseguia enxergar, nem me mexer. Só consegui encostar a cabeça no box e dizer “Nunca mais quero ter outro filho”. Hehehe. Foi brincadeira, viu?

Ouvi uma voz linda dizendo “neném”. Olhei pra fora do box e vi a Melissa, linda, no colo da Ana Cris. Senti um alívio enorme. Ela tinha ficado bem. Olhei pro Angelo, pálido, com o João no colo. Ele entregou o João pra mim e disse “Você conseguiu. Viu? Foi tudo bem”. Eu só consegui pegar o menino no colo, mas estava tensa, não conseguia fazer nada.

O Angelo abriu as perninhas do menino e disse “É menino... Seu sonho tava furado”. Ainda bem, né? A Dra. Mema veio cortar o cordão. Eu queria ver como ficava o cordão, o neném e a placenta, mas não estava conseguindo me mexer. Ia ser difícil sair do banheiro. Deixei cortar. O Angelo cortou, todo feliz.

Fui praticamente carregada até a cama. Enquanto o Dr. Jorge e a Dra. Andréa me examinavam, a Dra. Mema secava o João. Tive uma laceração bem superficial, que não precisou de pontos, apesar do moleque ter saído inteiro em uma contração só. Já estava me recuperando, ouvindo.

A Ana disse que ele nasceu com a cor super boa, que a cabeça estava redondinha, redondinha. Dr. Jorge disse que ele nasceu com uma touca de bolsa amniótica, ainda. Todo mundo lamentou não ter visto. Inclusive eu. Eu e o Angelo lamentamos ter esquecido de filmar ou fotografar a hora. Mas... Já era.

A Ana pegou a balança pra pesar o João: 3,700kg. Eu pensei “caramba...”. Mas ouvi “menos 400”. Não entendi. A Dra. Andréa disse “3,300, então, né?” Eu fiquei meio sem entender. Aí o Dr. Jorge perguntou se tinham conseguido ajustar a balança, a Ana respondeu que não, que só subtraíram a diferença. Ah, agora sim, entendi...

Não sei que horas, mas vi a Dra. Andréa limpando o quarto, juntando fralda. A Dra. Mema disse que a cama estava forrada com um plástico que eles tinham trazido. Tinha o lençol descartável já na cama. Um monte de coisas que eu não faço idéia de quando tenha sido feita.

Dra. Mema veio fazer massagem pra soltar a placenta. Ai, que ruim... Mas saiu logo. O João mamou bem pouco e dormiu. Um pouco depois da meia noite, todo mundo foi embora. E ficamos, eu, Angelo, Melissa e João, todos mortos de cansaço.

Alguém me disse pra não tomar banho, ainda. Eu bem que tentei, mas não consegui dormir com o cheiro de sangue. Acordei o Angelo e fui tomar uma ducha beeeeem rápida.Voltei pra cama e desmaiei.

Na manhã seguinte, a Ana passou aqui em casa, mas eu nem vi. Dormi até... Sei lá que horas... Eu merecia. Fiquei uma semana sem dormir...

Tenho muito a agradecer, a todo mundo.

Ao Dr. Jorge, que confiou em mim e aceitou acompanhar o meu parto domiciliar, que sempre foi atencioso, nunca deixou de dar uma resposta.

À Ana Cris (doula), que indicou o Dr. Jorge, a lista. Que ensinou muito. Que ouviu minhas lamúrias, sempre tentou ajudar. E, principalmente, por ter cuidado tão bem da Melissa, num momento em que eu precisei muito do meu marido, me deixando sossegada.

À Dra. Mema, que eu conheci só no final da gravidez, mas que foi extremamente carinhosa, sempre. Uma mãezona, mesmo.

À Dra. Andréa, que eu só conheci, mesmo, no dia do parto.

À Dorothe, que foi de extrema importância. Sem a indução com a acupuntura, não sei até onde teria conseguido levar. Por ter ficado comigo, quando eu achei que não ia mais conseguir, quando eu pedi por ajuda, por ter olhado nos meus olhos e dito que eu conseguia. Pela doçura da voz, que vai estar sempre comigo.

À lista, que ajudou sempre, mas muito mais no final, quando eu já não agüentava mais. Foi muito bom lembrar que muita gente passou pelo que eu estava passando.

À Melissa, por ter ficado tão boazinha (hehehe, acho). E por ser a menina que é, que me fez querer outro filho tão cedo. Que abriu meus olhos quanto aos horrores de uma cesárea besta e mal indicada.

Ao João, que ajudou e nasceu rapidinho, que agüentou firme todas as horas de trabalho de parto e me deu a chance de ter o parto que eu tive. Que nós tivemos. E que me deixou dormir na noite pós-nascimento.

E ao Angelo, que sempre me apoiou. Que mostrou que pode ser firme quando precisar ser, que me segurou e acreditou em mim, mesmo assustado, sem saber o que estava acontecendo. Que provou, mais uma vez, ser o homem da minha vida. Junto com o João. Hehe.

Obrigada.


O relato do parto do Ângelo (Bhuda)

Desde o nascimento da Melissa, quando começamos a “estudar” um pouco mais o assunto parto, vi que realmente somos “burros”. Somos “burros”, sim, a ponto de aceitarmos as coisas e tarefas que nos são impostas e nem sequer cogitarmos uma segunda opinião ou não procuramos nos informar e conhecer o que realmente está acontecendo.

Confesso que me considero culpado em relação a Mel ter nascido de cesárea, pelo fato de concordar com tudo e todos. Mesmo sabendo que queríamos um parto normal.

Após a cesárea, fomos atrás para saber se realmente foi necessária e os motivos. Descobrimos através da lista de discussão MATERNA_SP que poderia ter sido normal e que os próximos também poderiam.
Isso ao mesmo tempo causou raiva e felicidade. Raiva por não ter feito nada e felicidade por saber que a Thá poderia ter o parto normal que sempre quis.

Essa felicidade foi uns dos motivos de tentarmos mais um bebê. Sabíamos que poderia ser normal e a Melissa iria ter um amiguinho ou amiguinha.

Tentamos e conseguimos, bem rápido até. Em Junho/2004 estávamos esperando outro bebê. Começamos a ir atrás de médicos que topassem encarar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarian – Parto Vaginal Após Cesárea), mas foram buscas frustradas. Fomos até em Casa de Parto, mas não nos aceitaram. Nenhum dos médicos e enfermeiras conhecidos de BH topou fazer o parto em casa.

Nesta busca inicial, estávamos morando em BH, odiávamos morar em SP. Entre um médico e outro, a Thá começou a passar muito mal e resolvemos que ela deveria voltar para a casa da mãe dela até que passassem os enjôos.

A Thá voltou para SP e marcou uma consulta com o Dr. Jorge, o conheceu pessoalmente. Não pude ir, mas liguei assim que a consulta acabou. Ao ligar para ela, nunca a vi mais feliz e mais confiante em ter esse bebê de parto normal. Contou-me tudo, nos mínimos detalhes, inclusive sobre o parto em casa.

Após essa consulta passei a ir a todas as outras até o final da gestação. Cada dia, cada consulta que passava sentia que a Thá estava mais feliz e ambos mais confiantes.

Foram seis meses de consulta com o Dr. Jorge, todo esse tempo aprendendo mais e curtindo cada momento da gestação.

Todos nos achavam loucos, onde já se viu parto normal depois de cesárea e ainda por cima, parto em casa?

A Thá e eu fizemos apostas de como seria o João, curtimos bastante a idéia de como seria ter o bebê em casa. Ouvíamos e líamos os relatos das outras mães, as dificuldades e problemas enfrentados e como foram resolvidos com a ajuda do Dr. Jorge, Ana Cris (doula), Dr. Andréa e todos os outros médicos e parteiras.

Já estávamos indo toda semana em consulta, cada dia o João estava mais encaixado e cada dia com o dorso para um lado. Toda consulta pedíamos a opinião da Dra. Mema, e ela: “Calma, ainda não vai ser essa semana”. Isso nos deixava mais nervosos, mas mais esperançosos porque víamos no rosto do Dr. Jorge e Dra. Mema que realmente teríamos o João em casa.

Na consulta de 39 semana, tudo certo, dorso à esquerda, mais encaixado e novamente perguntamos a Dra. Mesma, e ela disse: “Não vai ser essa semana, mas na próxima consulta você vai estar em quase lá”. Bem, como estávamos quase lá, foi uma semana de expectativas, terminamos de arrumar tudo, deixar tudo pronto.

Do dia 30 para frente foi punk para a Thá, todas as noite achávamos que seria aquela noite, ela não conseguia mais dormir, contrações a noite toda, e o pior é que elas vinham reguladinhas, de tempo em tempo certinhas. Isso aumentava nossa preocupação, pois não sabíamos se era um trabalho de parto realmente ou se era apenas uma preparação.

Foi assim até a próxima consulta, 02/04 sábado, quando o Dr. Jorge não sentiu mais a cabeça do João, ele já estava bem encaixo e agora era só esperar. Realmente o que a Dra. Mema disse estava se confirmando, até brincamos com o Dr. Jorge para desmarcar a próxima consulta.

Na noite de sábado para domingo começaram as contrações como de costume, ficaram de cinco em cinco minutos a noite toda, o dia amanheceu e nada das contrações pararem. Passou a hora do almoço e nada de parar. Resolvemos ligar para o Dr. Jorge e conversar com ele e explicar o que estava acontecendo. Ele nos instruiu a ir até a Santa Casa e realizar um toque e ver se estávamos em TP. Chegamos no hospital, demos entrada e a Thá foi falar com o médico, 20 minutos de monitoramento e nada de contrações, colo grosso, e bebê alto com um dedo.

Nos restavam apenas voltar para casa e esperar, pois ainda não estávamos em TP. O mais engraçado foi que ao sair do hospital as contrações voltaram de cinco em cinco minutos. Passamos o resto do dia com essas contrações, mas estávamos tranqüilos porque sabíamos que elas estavam ali para nos preparar.

Mais uma noite se passou e nada. Contrações a noite toda e nada de TP. Na manhã de terça, dia 05/04, acordei para ir trabalhar, mas a Thá me segurou e pediu para ficar, ela estava super cansada e reclamava bastante da dor, pois vinham a cada cinco minutos e cada vez mais dolorosas. Fiquei em casa fazendo massagens e cuidando dela e da Melissa. Resolvemos andar um pouco para tentar aliviar e esquecer as dores, fomos até a padaria, andamos bastante, na volta ficamos andando em volta da casa, achávamos que iria ser aquele o dia, mas nada novamente. As contrações pararam e não voltaram mais, ficamos toda a parte da tarde sem sentir nada. Dormimos no sofá, descansamos o que deu, pois as dores não a deixavam dormir.

Na terça de noite, fizemos o normal: jantamos, tomamos banho. A Thá ficou no computador e eu fui dormir com a Melissa, mas antes de dormir eu disse para ela: “Thá não se preocupa que o João vai nascer hoje até o meio-dia”.

Sei lá que horas eram quando fui acordado pela Thá dizendo: “Angelo, acho que minha bolsa estourou!”. Dei um pulo quase cai em cima da Melissa, pedi para ela me explicar como foi e ela o fez. Ficamos ali meio que sem saber o que fazer, sem saber se realmente aquilo seria água da bolsa, pois não tinha cheiro de cândida igual o pessoal fala.

Eu me senti como um vidente, antes de dormir falo que ele vai nascer até o meio dia e quando dá meia noite a bolsa estoura. Estávamos radiantes até a Melissa acordou com tanto nervosismo. Eu abraçava a Thá e sentia que seria hoje e queria transmitir isso para ela.

Resolvemos ligar para o Dr. Jorge e lhe informar o que estava acontecendo. Ele nos instruiu a ir até a Santa Casa e tomar o antibiótico e ligar para a Ana Cris (doula) e depois para ele novamente. Tomamos remédio, ligamos para a Ana Cris, e o Dr. Jorge nos ligou dizendo que já estava vindo. Pensei comigo é agora ou nunca, ele realmente vai nascer hoje e vai correr tudo bem, a Melissa ainda continuava acordada e totalmente ligada em tudo. Antes das 3 da madrugada chega a Ana, ouve o coração com o Doppler e diz que está tudo bem e ficamos esperando o Dr. Jorge e equipe.

Pouco mais de 30 minutos eles chegam, Dr. Jorge, Dra. Mema e Dra. Andréa. Outro Doppler e novamente tudo certo nos restava apenas esperar.

Nossa sala estava engraçada, tinha médico no computador, médico dormindo no sofá, doula no chão, criança brincando, gestante andando e fazendo careta, pai marido preocupado, mas todos muito felizes com a situação. Às 8 da manhã, a junta médica resolve fazer o primeiro toque: 7 para 8 cm, colo grosso e bebê alto. Mas a Thá estava indo super bem, mais ou menos 1 cm por hora. O que eu disse antes de dormir que na hora do almoço o João teria nascido estava quase acontecendo, bastava apenas esperar o momento dele sair.

E o dia continua, a Melissa resolve dormir um pouco e eu fico com a Thá andando pela casa, vamos para cima e para baixo, de um lado para o outro, mas firmes com a evolução rápida do TP.

Por volta do meio-dia, 5 horas depois do primeiro toque, lá vamos nós para o segundo toque... 7 pra 8 cm, com colo e bebê alto, não tínhamos evoluído nada, mas estávamos fortes e confiantes. A Dra. Mema não nos deixou um minuto, ficou nos dando força e ajudando a Thá.

Passamos o dia, Thá e eu, juntos o tempo todo revezando os ambientes da casa, entre quarto, sala, cozinha, banheiro, chuveiro, quintal, andamos milhares de quilômetros dentro do terreno de casa, nem vimos a Melissinha direito, coitadinha. Fomos assim até às oito da noite, quando mais um toque e ainda continuávamos com 8 cm, mas de acordo com o Dr. Jorge, faltava pouco, faltava apenas uma forcinha extra, uma contração um pouco mais forte. Foi quando a Ana decidiu chamar uma amiga doula, a Dorothe, para dar uma ajuda com acupuntura.

A Dorothe chegou por volta das 20:30 e começou a acupuntura... Confesso que só de olhar eu também sentia dor. Acabando a sessão, parece que num passe de mágica as contrações ficaram fortes e reguladas. Durante uma hora mais ou menos ficamos a sós no quarto, eu fazendo massagem e dando suporte para ela. Dra. Mema, me chamou para jantar e disse que ficava com a Thais, eu não quis e continuei junto com ela e novamente ficamos sozinhos.

Às 22:00, a Thá pediu para ir até o chuveiro, pois a água quente relaxa os músculos e aliviava as dores. Entrei com ela debaixo d’água, só tirei a camisa e fiquei com ela. Sentado em um banquinho e ela no banco de cócoras do Dr. Jorge, ficamos ali por 20 minutos.

Eu estava um tanto quanto assustado, nunca tinha visto a Thá “daquele jeito”, chegava a chorar quando ela tinha contrações, parece que eu sentia cada dor, cada sentimento que nela acontecia, parece que eu estava tendo o filho também. Debaixo do chuveiro o Dr. Jorge fez o terceiro toque e comenta, que já estava com dilatação total, sem colo, mas ainda estava alto. Isso fez que a Thá pedisse para ir ao hospital um monte de vezes.

Eu não lembro quem realmente estava no banheiro, lembro apenas de olhar nos olhos da Thá, chorar e pedir para ela ser forte que estava acabando, que ela ia conseguir. Ela, a cada contração, olhava para mim, chorava e pedia para parar dizendo que não agüentava mais. Lembro da voz da Dorothe falando para a Thá não desistir e lembro da Melissa dizendo “Mamãe”.

Não foram mais do que 5 contrações para o João nascer, mesmo estando alto ele veio, desceu e saiu com bolsa e tudo. Saiu com o último grito da Thá: “Eu não quero mais!”. Não consegui pegá-lo saindo, mas o Dr. Jorge diz que conseguiu, só consegui segurar a Thá e olhar para ela chorando emocionado.

Ela ainda estava de pé quando o Dr. Jorge me passou o João por debaixo das pernas da Thá, eu o peguei no colo, tão pequeno, tão indefeso. Pedi para a Thá sentar para segurá-lo. Ela sentou, reclamando bastante de dor e eu entreguei para ela o João e disse que ela tinha conseguido, que ela foi forte e conseguiu realizar o sonho de ter um parto normal e natural da maneira que ela sempre quis.

Quando ela o segurou no colo, foi a coisa mais linda que já vi. Vi tanto amor, que até pareciam ser uma pessoa só, uma alma, um só corpo. Não me contive e comecei a chorar também, apenas consegui abraçá-la e ouvir no fundo a voz da minha gracinha, a Melissa, dizendo “Neném!”.

Não filmamos, não fotografamos, mas cada momento está gravado na nossa mente e nas mentes dos que estavam presentes. Foi uma experiência única, sensacional e muito, mas muito prazerosa. Nunca fiquei tão junto da Thá como nesse dia, nunca imaginei amá-la tanto quanto eu a amo. Nunca imaginei que seria possível vivermos mais felizes e mais próximos do que já vivíamos.

Foram 25 horas que fiquei tão próximo dela, que descobri uma Thais que não sabia que existia. Que ela não era mais a garota que conheci pela Internet, que era tímida a ponto de não conseguirmos nem conversar de tanta timidez. Eu descobri uma Thá mulher, uma pessoa que transborda energia e força, e bota força nisso. 25 horas em que a Melissa ficou super bonitinha, boazinha e super social, ainda bem, porque não conseguimos dar atenção para ela. Você é a mocinha mais linda do mundo, papai te ama.

Nunca vi tantos médicos reunidos: Dr. Jorge, muito obrigado, por nos mostrar que é possível e que devemos acreditar e não desistir. Por nos dar opções e sempre nos explicar cada uma delas. Nunca nos abandonou e sempre deu suporte necessário. Muito obrigado por segurar o João (que ainda não sabemos se caiu ou não). Muito obrigado.

Dra. Mema, uma mãe, doula, médica, amiga. Obrigado pela ajuda, massagens, palavras de conforto e incentivo e porque em todo o TP manteve nossos ideais e nos ajudou para que tudo corresse bem. Muito obrigado.

Dra. Andréa, não a ouvimos muito, mas também estava sempre ao lado da Mema, nos ajudando, fazendo a parte mais técnica e brincando com a Melissa.

Ana Cris, grande babá, nos ajudou muito com a Melissa e também com as massagens. Obrigado por nos ajudar na lista junto ao

Dr. Jorge e nos mostrar os melhores caminhos para o parto natural.

Dorothe, não a conhecia e o pouco que vi nos cativou. Estamos extremamente agradecidos, tanto pela acupuntura mágica quanto pelas palavras de conforto nos momentos mais difíceis, pela disposição de sair de casa para vir nos ajudar. Muito obrigado.

Thaís, obrigado por tudo, por me fazer acreditar nas coisas. Fez com que eu crescesse nesses cinco anos juntos. Deu-me, Melissa e João, as coisinhas mais maravilhosas do mundo. E posso dizer que amo a coisona mais maravilhosa do mundo, você!

EU TE AMO!


Thais Saito
Guarulhos/SP