Relato de parto de Andréa Mortensen

Andréa luta ao lado de seu marido para que o seu segundo parto seja mais tranqüilo – e Isabella nasce em casa, dentro da água, cercada pela família

 

Esse parto começou muito antes da concepção de nossa princesa. Nosso Lucas já tinha 3 anos e meio e o desejo de outro filho chegou, e com ele o desejo (inicialmente só meu, depois de meu marido também) de um parto diferente, mais ativo, mais humanizado, mais gentil, do que fora o parto do Lucas (que nasceu de parto normal hospitalar, com várias intervenções, nos EUA). Até pouco tempo atrás, eu me sentia satisfeita com as condições do nascimento dele e com minha postura, porém, depois de muito aprendizado e reflexões concluí que minha postura fora um tanto passiva na época e que muitas intervenções eram desnecessárias. 

 

Não sei dizer ao certo o que moveu minha mudança e a procura por informações, pela mudança e por um parto natural e livre de imposições (muitas delas sem sentido, que tanto existem no mundo da obstetrícia hospitalar). Sei que me sentia uma pessoa totalmente diferente, pronta e desejosa de parir naturalmente! 

 

Posso dizer que a trajetória de ter "nascido de dentro" aos pouquinhos já me fez sentir realizada e feliz. “Nascer de dentro” é o titulo de um dos livros sobre gravidez e parto de que mais gostei: Birthing from within, de Pam England. A principal mensagem da autora é que a preparação para o parto começa DENTRO da gente, e incentiva que cada mulher busque seu caminho (e dá sugestões maravilhosas, como fazer "arte do parto" na forma de desenhos ou arte em barro ou massinha de modelar ou outros, para que a mulher possa expressar o que sente ou busca em cada fase do parto, que começa muito antes da gravidez até, como eu própria senti). Ela fez pesquisas com arte no parto e relata como é impressionante o que muitas mulheres expressam através da arte, de uma forma que não conseguem através de palavras.  

 

Nossa menina tão amada e muito desejada foi concebida no início de 2007. Apesar de ter um plano de saúde que cobriria o parto no hospital, nossos planos se consolidaram no desejo de ter um parto domiciliar, talvez na água (para isso alugamos uma piscina de parto no site www.waterbirth.org). “Talvez” porque pretendia usar a piscina durante o TP e esperar para ver como me sentia na hora P. Contatamos uma parteira, Ellen, uma anja que possibilitou a realização de nosso sonho, muito experiente em partos domiciliares e superaberta à conversa, que me deixou tranqüila em relação a todos os meus planos! Conversamos também com uma doula, com quem criei empatia desde o momento em que a conheci (e que teve sua segunda filha em casa). Ole me deu total apoio nesses planos, ele é dinamarquês e nasceu em casa também por desejo de sua mãe. Queria também ter meu Lucas por perto, participando do parto na proporção em que ELE se sentisse confortável (não me entrava na cabeça a idéia de ir ao hospital ter a Isabella e depois voltar com ela e apresentá-la: “olha, Lucas, essa é sua irmã!”). Meus pais vieram do Brasil nos ajudar e ficar com ele, caso ele decidisse não estar presente na hora do trabalho de parto. 

 

Preparei-me emocionalmente de várias maneiras, primeiro, claro, com informações, depois fui atrás uma prática física, fiz yoga para gestantes, depois um curso que atendesse às nossas expectativas (cursos oferecidos por hospitais com visão tecnocrática e voltada aos interesses deles mesmos não nos serviam mais). Eu e Ole fizemos um curso muito interessante onde aprendemos técnicas de relaxamento, respiração e visualizações para desviar a atenção da dor (curso de Hypnobirthing, link aqui: www.hypnobirthing.com ). O curso foi particular, voltado ao parto natural, a mensagem principal do curso era que parto era um evento normal, seguro, fisiológico, não tinha nada a se temer. Achamos diferente de tudo que já tínhamos visto por aí. A parte mais interessante foi uma sessão de “liberação de medos”, onde eu e Ole conversamos sobre medos e receios que tínhamos quanto ao parto, trabalhamos isso e nos sentimos mais seguros ainda quanto às nossas opções. Seja qual for a opção do casal, considero essencial pensar e trabalhar seus medos antes do parto. 

Então, acertado o contato da Ellen, também continuei em contato com as parteiras que atendiam no hospital aqui, e fiz pré-natal "duplo" com elas (pago pelo seguro de saúde) e com a Ellen, que pagamos do nosso bolso em prestações. O serviço que ela fez valia com certeza MUITO mais do que nos cobrou, e assim pudemos ter a chance de um nascimento que desejávamos: suave, tranqüilo e respeitador (nessa questão, tenho que comentar a "burrice" de o seguro saúde cobrir o pré-natal e parto no hospital, que é MUITO mais caro que o parto em casa! No fundo, economizamos para a companhia de saúde e o hospital. Planejamos pedir reembolso da seguradora SIM, porque se ninguém mostrar a necessidade de assegurar esse tipo de serviço, as seguradoras nunca mudarão essa postura, não é?). 

 

O motivo de estar em contato com as parteiras do hospital era alguma situação especial em que se fizesse necessária a transferência para o mesmo (uma vez que a parteira do PD não pode praticar dentro do ambiente hospitalar).  

 

Nas consultas tive a oportunidade crescente de verificar que, apesar de serem parteiras e terem portanto a filosofia voltada ao apoio ao parto natural, elas seguiam todos os protocolos hospitalares tradicionais. Já a parteira domiciliar tinha perfeitamente a filosofia que estávamos procurando.  

 

A gravidez foi tranqüila, muito saudável, abençoada. Fiz somente uma ultra-sonografia, por volta das 20 semanas, quando descobrimos ser uma menina! Recusei vários exames oferecidos que não considerei necessários para progressão dessa gravidez, afinal de contas, gravidez é um processo fisiológico e não uma doença! 

 

Elaboramos planos de parto (um para plano A, em casa, e plano B, hospital, caso houvesse a necessidade), que foram pensados e discutidos com as parteiras nos mínimos detalhes. 

 

O tempo passou, e no dia 10/10/2007, lá pela uma e meia da manhã, comecei a ter contrações leves, mas que me tiraram da cama. Fui para o computador e foi ótimo falar com algumas amigas na Europa e no Japão: Rose, Catarina e Flávia (só deu certo devido ao fuso horário, não peguei ninguém no Brasil acordado!!). Sentia-me muito feliz! Levantava conforme vinham contrações e andava cantarolando, sabia que minha princesa estava chegando!!

 

Depois fui tomar um looongo banho e sentia tudo muito tranqüilo ainda. Ole querendo já ligar para a parteira e para Shannon (nossa doula) e eu dizia que não queria acordá-las tão cedo, que ainda ia demorar, que lá pelas 6 da manhã ligaríamos!! Mal sabíamos que a hora estava bem próxima! Saí do banho e coloquei biquíni, planejava vesti-lo durante a maior parte do TP. Só que logo depois (umas 4 da manhã) as contrações estavam mais e mais fortes e eu só conseguia lidar com elas de quatro, no tapete do banheiro! E arranquei aquele biquíni com raiva, como se fosse o responsável pela dor!! Ahah!  

 

Ole resolveu encher a piscina de parto, mas eu não queria entrar lá de jeito nenhum antes de a Ellen (parteira) chegar e me examinar, pois li que não é aconselhável entrar antes de 5 cm de dilatação para não desacelerar o TP. Eu também não acreditava que as coisas progrediriam tão rápido assim, sendo que o TP do Lucas durou 14 horas! 

 

Porém, pouco depois disso comecei a ter vontade de fazer cocô (e lembrei da instrutora do curso de Hypnobirthing dizendo que quando sentisse essa vontade, não era cocô não, era o bebê!). Acredito que nessa hora já estava 10 cm dilatada! 

 

Lucas acordou porque eu já não conseguia gemer baixinho (tadinho...), mas ficou bem e já ganhou o presente que tínhamos prometido que ganharia quando a Isabella nascesse (um guindaste gigante de Lego, e ele escolheu para ela uma canguru de pelúcia). Meus pais levantaram também e ficaram brincando com ele. A partir daí tudo é meio nebuloso, realmente entrei na partolândia. 

 

Eram 5 da manhã quando ligamos para Ellen e para Shannon e enfim Ole me convenceu a entrar na banheira. Dei uma bela relaxada, pois a piscina tinha SPA (bolhas) e acho que isso me tirou o foco das contrações por um tempo. Mas depois a dor foi apertando e me lembro de uma hora querer fugir de tudo aquilo, e dizia ao Ole que não sabia se conseguiria ir até o fim. Eu queria fugir (não sei para onde!!) e a cada contração começava a “nadar” de um lado para outro da piscina!! 

 

Ole sempre me encorajando e dizendo que eu estava me saindo muito bem e cada contração estava trazendo a Isabella para mais perto de nós! Ele foi ótimo sempre, meu companheiro maravilhoso de todas jas ornadas de nossas vidas. 

Senti a bolsa de água se rompendo, ouvi um POP lá embaixo, as contrações então se intensificaram e sabia que a hora estava perto! 

Shannon chegou, entrou no quarto, eu e Ole dentro da piscina, e perguntou como eu me sentia. E eu já gritando de dor disse: “estou sentindo a cabeça dela, está coroando!”. Ela foi me acalmando, foi ótima em todos os momentos! Depois de alguns dias, numa visita, confidenciou que se preocupou pois a Ellen não tinha chegado ainda e a Isabella poderia nascer sem sua presença, mas deu tempo! Shannon também foi capaz de consolar o Lucas, que começou a chorar, talvez preocupado, talvez confuso, sem entender bem se mamãe estava passando mal. Calmamente lhe deu um abraço e lhe disse que sua mamãe estava sentindo dores porque estava trabalhando duro, mas estava bem, e que sua irmãzinha já iria nascer! Assim ele mudou totalmente a expressão do rosto e parou de chorar! 

Enfim, por volta de 6 da manhã Ellen chegou toda esbaforida, trazendo tudo quanto é coisa para dentro daquele quarto, malas, tanque de oxigênio, etc. Secretamente, todos se sentiram aliviados. 

 

Eu então lhe fiz uma pergunta idiota: “Ellen, já estou com 10 cm de dilatação, posso empurrar?”. Ela respondeu: “ué menina, a cabecinha dela está no meio do caminho, nem que você não quisesse, né?”. Bem, aí ela me direcionou para uma melhor posição para parir, porque eu estava totalmente acocorada na piscina e ela achou que essa posição iria favorecer rasgos. Me sugeriu então que recostasse no Ole, ele me apoiando por trás, mas ainda continuei acocorada. Desse modo, a pressão na pélvis foi bem menor e ela foi nascendo suavemente. Acho que a presença da Ellen me trouxe mais energia para terminar de parir. A dor estava muito forte e sentia tudo queimando (agora entendo o tal "círculo de fogo" de que falam!). Eu repetia sem parar: “Está doendo, está queimando!”. Nesse momento, lembrei-me de um trecho do livro da Ina May Gasking (Ina May´s guide for chilbirth), onde ela diz que sons primais virão quase que inconscientemente se você conseguir deixar o processo fluir. Ao longo das contrações seguintes fui empurrando gentilmente (apesar de, em alguns momentos, querer mesmo fazer uma força danada para acabar tudo, mas pensei que não queria “rasgar” e compensava ir aos poucos) e dizendo: “Ahh, uhh, ahhh, uhh” (imagino que esses foram os sons primais, eu sentia que precisava soltar aquilo de dentro de mim!! Não me senti inibida para tanto, pois estava no aconchego do meu lar, com pessoas queridas a minha volta). Ao mesmo tempo, a Ellen foi ajudando a posicionar a cabecinha da Bella da melhor maneira para o nascimento. Enfim, a cabeça saiu com uma contração e na próxima o resto do corpo, nasceu na piscina e já veio para meus braços!!  

 

Que alegria, que emoção indescritível! Temos fotos desses últimos momentos, no período expulsivo (santa Shannon que lembrou de tirá-las!), e estou sorrindo.  

Tinha uma circular de cordão apertadinha no pescoço, mas não houve problemas, a Ellen tirou da volta do pescoço e pronto, veio rosadinha, linda, linda, alerta! Eu ainda consegui dar uma olhadinha e checar se era menina mesmo. Ole cortou o cordão após ele parar de pulsar, e depois saiu da piscina e foi dar um abraço bem gostoso no Lucas!! Disse-me que nunca mais esquecerá desse abraço. 

Então saí da piscina para expulsar a placenta, acocorei-me na cama enquanto a Shannon segurava a Isabella (foi tudo bem, mas um pedaço de membrana ficou retido e só saiu cerca de 4 horas depois, com muita massagem no útero e uma manobra da Ellen, que entende mesmo da coisa).  

Não tive nenhuma laceração! Enquanto isso, foram aplicadas compressas com gelo para o desconforto lá embaixo, e a Bella já mamando muito (nossa, que sucção forte ela tem, parece que já nasceu sabendo exatamente o que fazer!), abraçadinha comigo desde que nasceu.  

Ela é tão calminha e praticamente não chora. Nasceu com 3,6 kg (mais pesada que o Lucas!) e 51 cm, apgar 9 e 10. Logo depois nos reunimos como família naquela cama, Lucas admirou sua pequena irmãzinha e papai logo se apaixonou por ela também. 

 

Posso dizer que lutamos muito por tudo isso e me sinto muito realizada, feliz, poderosa, mamífera! Senti-me ocitocinada por muitos dias!  

Peço permissão para citar essa frase do Ric Jones que expressa bem o que estou sentindo: 

 

O evento do nascimento é um momento impressionante na vida de uma mulher; divisor de águas é capaz de fazê-la naufragar em uma depressão melancólica (por reforçar suas fantasias inconscientes de impotência) ao mesmo tempo em que pode alçá-la a um patamar inimaginável de segurança, auto-estima e determinação. Uma encruzilhada ímpar. É fácil ver que isso pode ser atingido SEM a experiência de um parto (que o digam Madre Teresa, Jesus Cristo, etc.), mas nem por isso podemos fechar os olhos à sua imensa potencialidade criativa.

 

Ric jones 

Obrigada, obrigada por tanto apoio, carinho, suporte! 

 

Especialmente à querida parteira Ellen, que foi peça fundamental na realização de nosso sonho. Sua luta é agora nossa luta, permitir que mais e mais mulheres possam experimentar um parto domiciliar no Estado da Pennsylvania (que atualmente encontra-se em situação crítica para as parteiras que assistem partos domiciliares).  

 

À querida Shannon, que mais que doula, tornou-se uma amiga! 

 

Obrigada à querida amiga Waleska Nunes, que foi parte fundamental no processo de mudança interior, agora somos mais que cúmplices! 

À AnaCris e Ana Paula Caldas, que sempre foram lidas nas listas de discussão de parto e no orkut com muita atenção e carinho.  

 

Ao Ric Jones, com suas mensagens inspiradoras e verdadeiras e por me proporcionar a leitura de seu livro, Memórias de um homem de vidro.  

 

À Aninha Katz, que sempre tinha uma palavra de encorajamento, apoio, colo e que preparou óleo de massagem e spray aromatizador para o parto especialmente para mim!  

 

À querida amiga Melissa Sabo, que teve um parto domiciliar na mesma época em que engravidei, e que foi uma grande inspiração para o início de nossa jornada! 

 

À querida Melania, pela qual nutro profundo respeito e admiração.  

 

À querida amiga Catia Chuba, que também realizou seu sonho e pariu em casa somente dois dias depois de mim, e que foi grande companheira de conversas intensas e recheadas de carinho e cumplicidade! Tenho certeza que ambas aprendemos e crescemos juntas. 

 

Ao meu marido e meu filho, amores de minha vida, que graças a Deus sempre estiverem do meu lado. Amo vocês! 

 

E à todas outras amigas e amigos que estiverem comigo nessa jornada!

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