Relato de parto de Andréia Mortensen - nascimento do Lucas

 

Um parto normal hospitalar nos Estados Unidos.

30 de abril de 2003, uma quarta feira muito bonita de primavera, em Portland, OR, EUA.

 

Eu e Ole bem ansiosos, afinal de contas a data prevista para chegada do Lucas já tinha passado vários dias! Fomos para última consulta de rotina com o GO, Dr. Ono e ele viu que apesar de alguns centímetros de dilatação, não havia nem sinal de trabalho de parto vindo. Nos explicou que estava tudo bem apesar das quase 41 semanas de gravidez e podíamos esperar mais, porém ele estava saindo de férias na semana próxima, então nos ofereceu a opção de induzir o parto daqui a 3 dias, um sábado.

 

Nossa, que decisão difícil de tomar! Por um lado parecia que seria um alívio que o Lucas viesse, e na presença do Dr. Ono, que sempre foi muito atencioso em todas as consultas, muito falante, explicava tudo e sempre disposto a discussões (eu com minhas listas enormes de dúvidas). Um médico que certamente encoraja o parto normal e queria muito que isso acontecesse (nos EUA, médicos cesaristas não são a norma).

 

Bem, depois de pensar um pouco decidimos aceitar a indução, pois assim ele nos acompanharia, ao passo de que se esperássemos mais uma semana teríamos a chance do Lucas nascer com um médico desconhecido nosso. O fator psicológico conta demais nesse momento tão importante de nossas vidas, onde não tínhamos nenhum amigo ou parente por perto, e tínhamos no Dr. Ono uma pessoa amiga e que aprendemos a confiar ao longo desses 9 meses. Bom, decidimos e marcamos a indução para o um sábado, que seria dia 3 de maio de 2003.

 

Depois da consulta, fomos almoçar; eu um tanto confusa quanto a essa decisão. Pensamos juntos e ficamos tranqüilos pois poderíamos cancelar a indução a qualquer momento. E fomos para casa descansar, eu com um barrigão enorme e bem pesado!

 

Bem de noite após o jantar as contrações vieram, bem fracas no inicio, ainda achei que eram somente Braxton, mas elas persistiram! Ah, parece que o Lucas tinha adivinhado que marcamos a indução, mas quis vir quando ELE decidiu, menino esperto, hein! No fim fiquei muito feliz porque veio na hora certa e a indução não foi necessária.

 

As contrações não estavam muito fortes e doidas, mas por volta das 10 da noite, começam a ficar muito constantes. Ligamos para o consultório obstétrico e a médica de plantão nos disse para ir ao hospital. Ah, que emoção, uma hora tão esperada, estava para acontecer finalmente!

 

Tomei um banho rápido, pegamos nossa malinha já toda arrumada, e rumo ao hospital que já tínhamos visitado inclusive.

 

Chegando lá, fizeram a prova do toque e viram que não tinha dilatado muito mais do que já estava, ou seja, 3 cm, e como eu não parecia estar com muita dor, queriam me mandar de volta para casa…. Bom, mas para garantir, pediram que eu ficasse numa sala de triagem para monitorar o progresso das coisas por algum tempo, antes de nos mandarem de volta para casa. E foi lá nessa sala que o trabalho de parto começou com força total! Primeiro veio uma diarréia muito chata e constante, junto com as contrações; não foi nada agradável. E a dor começou a aumentar muito, e mais um pouco, e mais…. Comecei a precisar de ajuda do Ole para suportar, então ele me abraçava e tentava fazer massagem em minhas costas e seguir algumas dicas que tínhamos praticado do livro Lamaze (Preparation for Birth : The Complete Guide to the Lamaze Method by Beverly Savage, Diana Simkin).

 

Por volta de 1h da manhã, outro médico veio verificar o progresso, quando decidiram que eu poderia ser admitida mesmo no hospital… ufa! Assim fomos para a sala que seria nossa, e coloquei aquela roupinha linda de hospital.

 

A partir daí me lembro de ter perdido totalmente noção do tempo, e já me sentia muito cansada, afinal o trabalho de parto começou bem na hora que eu iria para cama dormir.

 

E eu andando para lá para cá, tentando achar uma posição para quando as contrações viessem, quando nos tocamos que esquecemos em casa a bola suíça que compramos para ver se ajudava nisso. Optamos por não ter uma doula, apesar de reconhecer sua finalidade muito nobre e útil, mas como não tínhamos amigos aqui, para mim seria como uma estranha a mais no meio daquele emaranhado de emoções, e sabia que podia contar com o Ole para me “doular”, aliás, ele foi maravilhoso em tudo!

 

Me ligaram nos monitores, fetais e de contrações, mas eu não queria ficar parada naquela cama pois andar e ficar de cócoras aliviava um pouco da dor, e fazendo as respirações do Lamaze, que não hora esqueci tudo e somente o Ole para me lembrar e me “ensinar” novamente.

 

Quando chegou na fase de uma contração a cada cinco minutos (isso já estava quase amanhecendo), não conseguia mais suportar. Como tinha escrito no meu plano de parto que poderia me oferecer uma epidural, a anestesista veio oferecer. Abaixo nosso plano de parto:

 

The Mortensen Family Birth Plan / Plano de Parto da Família Mortensen

 

Mother-to-be/ Futura mãe: Andréia C. K. Mortensen

 

Partner/ Parceiro: Ole V. Mortensen

Due Date/ Data provável de parto: 04/29/03 (29/04/03)

Practitioner/ Obstetra: Dr. Al Ono

Place of Birth/ Local de Nascimento: Providence St. Vincent Medical Center

Our baby/ Nosso bebê: Lucas Karklin Mortensen

This birth plan is intended to express the preference and desires we have for the birth of our baby. It is not intended to be a script. We fully realize that situations may arise such that our plan cannot and should not be followed. However, we hope that barring any extenuating circumstances, you will be able to keep us informed and aware of our options. Thank you. (Este plano de parto pretende expressar nossas preferências e desejos para o nascimento de nosso bebê. Não pretendemos que seja um roteiro. Nós temos a plena consciência de que situações podem surgir, de forma que este plano não possa ser seguido. Contudo, esperamos que, excetuando circunstâncias extremas, vocês possam nos manter informados de nossas opções. Obrigado.)

 

First Stage (Labor)/ Primeira etapa (Trabalho de Parto)

 

• Dim Lights (Luzes suaves)

 

• Would prefer not to have students, residents etc. (Preferimos que não haja estudantes, residents, etc..)

• Would prefer to keep vaginal exams to a minimum (Preferimos que o exame de toque se restrinja ao mínimo).

• Clear fluids and ice chips. (Líquidos à vontade e pedaços de gelo para chupar)

• Saline lock, so I would be able to change positions often and walk around. (Soro atado ao corpo, de maneira que eu possa mudar de posições freqüentemente e caminhar).

• (Relaxation techniques (breathing, focusing, etc.) and massage with help of my partner. (Gostaria do auxílio de meu parceiro para técnicas de relaxamento: (respiração, concentração) e massagem).

• Would like to use the hot tub. (Gostaria de usar a banheira de água quente)

• Please offer me pain medication. OK with regular Epidural. (Por favor, me ofereçam analgesia. Aceito anestesia epidural)

Second Stage (Birth)/ Segunda etapa (Nascimento)

 

• If possible would like to squat for the birth. (Se possível, gostaria de ficar na posição de cócoras durante o nascimento).

• I would prefer no episiotomy, but please use compresses, perineal massage and positioning. (Prefiro que não haja episiotomia. Por favor, utilize compressão, massagem no períneo e mudança de posição)

• Local Anesthesia (for repair). (Anestesia local para pontos)

Cesarean Birth/ (Nascimento por cesárea):

 

• Spinal/epidural anesthesia. Would like the partner to be present. (Anestesia raquidiana e epidural. Prefiro que meu parceiro esteja presente)

 

Baby Care/ (Cuidados com o bebê):

 

• Dad wants to cut the umbilical cord. (O pai deseja cortar o cordão umbilical)

 

• No separation of Mother & Baby, breast feeding as soon as possible. (Não separar a mãe do bebê. Amamentação o quanto antes)

• Please, delay the eye medication. (Por favor, não aplicar o colírio com a solução de nitrato de prata)

• No pacifiers, please. (Sem chupetas ou complementos, por favor)

• No circumcision. (Sem circuncisão)

• Cord blood will be donated to American Red Cross. (células do cordão umbilical serão doadas para a Cruz Vermelha Americana)

Thank you! / (Obrigado)

Eu tinha sentimentos muito confusos quanto à analgesia, por um lado queria resistir a qualquer custo, mas por outro reconhecia que o ser humano tem limitações, e senti que estava no meu limite, doendo demais mesmo. Nessa hora eu já devia estar com quase 8 centímetros, e me lembrei de uma última discussão com Dr. Ono, onde eu perguntei sobre a epidural. O medo que eu tinha que a epidural poderia retardar o trabalho de parto, havia mais probabilidade de acontecer se administrada no comecinho, com poucos centímetros de dilatação, mas já assim, na “quase” reta final era menos provável.

 

Ainda relutei bastante quando a anestesista veio, tentei perguntar, argumentar, ela deve ter me achado uma gringa louca… risos..

 

Bom, a enfermeira me perguntou como estava minha dor numa escala de 0-10 e minha resposta foi 9! Realmente não conseguiria agüentar muito mais, então fomos em frente.

 

Foi difícil para anestesista aplicar pois as contrações estavam intensas e eu tinha que ficar paradinha, quieta! Assim entre uma contração e outra me esforcei para não me mexer e na segunda tentativa deu certo. Foi um alívio imenso, que não sei nem descrever!

 

Foi então que deitei um pouco e relaxei, mas como a essas alturas já estava com o monitor de batidas do coração do Lucas e de contrações o tempo todo (antes o monitoramento era intermitente porque insisti, bem que quiseram que fosse constante) e pude observar na telinha da “TV” cada contração que vinha, mas sem dor! Incrível!

 

Ole deitou um pouquinho também nessa hora, e ambos relaxamos enquanto a natureza fazia seu trabalho, preparando para o Lucas chegar, mas não dormi, somente descansei um pouco.

 

Por volta da hora do almoço, Ole foi pegar alguma coisa para comer na cantina do hospital. Assim que ele saiu algo estranho aconteceu, pois as batidas do coração do Lucas começaram a diminuir rapidamente, e chamaram uma médica de emergência que me colocou de cócoras (coisa que foi bem difícil por causa da epidural), e me assustou muito dizendo que podia fazer uma cesárea as pressas para salvar o bebe!! Ai, meu Deus!!

 

Bom, foi eu virar de cócoras as batidas retornaram ao normal, o Lucas tinha que dar uma “mexidinha” lá, tadinho, estava desconfortável, e chamaram o Ole pelo interfone do hospital. Chegou correndo, nem comeu nada!

 

Bom, depois desse susto, tudo voltou ao normal e o Ole finalmente conseguiu comer algo.

 

Dr. Ono já estava a caminho. Outro obstetra que eu já conhecia da clinica também veio e decidiu romper a bolsa d'água artificialmente já que tudo indicava que estava próximo. A essas alturas nem ligava mais para quem entrava, saia, mexia, já tinha passado há muito tempo da fase do pudor.

 

Bom, pouco antes do meio-dia, Dr. Ono chegou e nem deu tempo de muita coisa quando ele verificou que era hora de “empurrar”: 10 centímetros! Incrível!

 

Então ele me orientou a "empurrar" cada vez que ele pedisse, conforme a contração vinha. Coloquei todas minhas forcas naquele trabalho, o mais importante que jamais tinha realizado em minha vida, o expulsivo.

 

A cada contração que vinha ele pedia: Push! Eu não consegui empurrar todas as vezes, mas tudo bem, na próxima tentava com força total, com uma barra de ferro e o Ole servindo de apoio. E ganhei também uma episiotomia nessa hora, meio a contra-gosto, ainda tentei argumentar se não era possível evitar, mas ele foi enfático que ajudaria, e parece ter ajudado mesmo.

 

E ele colocou um espelho para que eu pudesse ver a cabecinha coroando! As palavras dele: não é loiro! Ahahah, vê se pode? Quem diria que aos 6 meses de idade seu cabelinho, até então escuro, iria se tornar dourado?

 

Exatamente aos 12:27 h Lucas nasceu! Meia hora de empurrões, Dr. Ono ficou impressionado por ser primeiro filho! Foram cerca de 14 horas de trabalho de parto.

 

Na hora do nascimento as luzes foram diminuídas, e assim que o Lucas nasceu, Dr. Ono aspirou as secreções gástricas, limpou um pouquinho (ja não tinha quase vérnix por causa do pós-datismo) e veio imediatamente para cima da minha barriga; esse momento é inesquecível!

 

Ele estava tão alerta! Olhava para cima, para os lados, e principalmente para meus olhos. Eu e Ole admirando aquela criaturinha tão perfeita que Deus nos deu! Dr. Ono ofereceu para que o Ole cortasse o cordão e ele meio relutante o fez, porque afinal é trabalho do pai, disse Dr. Ono!

 

Enquanto admirávamos o Lucas, a placenta saiu e recebi os pontos na episiotomia. Já ofereci meu peito e ele mamou um pouquinho no peito esquerdo, aí foram medí-lo, limpá-lo, e os outros procedimentos padrão, porém, tudo na minha frente.

 

Fomos transferidos para outro quarto, e já estava me sentindo ótima! Para desespero da enfermeira levantei e fui ao banheiro sem pedir “autorização”. Estava com muita fome, afinal não tinha comido nada desde a noite passada, mas quando fui comer vomitei tudo (um pouco em cima do Lucas, tadinho!!) porque ainda tinha o resto do efeito da anestesia.

 

Ficamos a tarde toda curtindo nosso bebê e tentando amamentar. Tenho muito a agradecer as conselheiras da “La Leche League” que deram uma ajuda essencial, nesse dia e no dia seguinte, para que eu conseguisse amamentar com sucesso. Tivemos muitos obstáculos por causa de uma mamoplastia realizada há um tempo atrás, mas graças a Deus, tudo foi superado.

 

No final da tarde o Ole pediu para ir para casa porque ele estava exausto, e eu cheia de energia! Rsss….esses homens né?

 

Aqui um trechinho do que escrevi no meu "Diario do bebe":

 

1o. de maio de 2003, 12:27h: Lucas nasceu!

 

Foi o sentimento mais profundo, mais bonito do mundo, meu pequeno bebê em meus braços!!

 

Ele se parece com o Ole, mas tem os cabelos como os meus. É lindo!! Esqueci das muitas horas de trabalho de parto imediatamente! Dei de mamar rapidinho, então fomos para o quarto de recuperação.

 

O Ole está exausto, falei para ele ir para casa dormir, pois veio uma energia inesperada em mim, só queria cuidar do Lucas. Ele chorou bastante, pedi para enfermeira ficar com ele um pouquinho durante a noite, ele é um bom menino.

 

No dia seguinte fiquei chorosa e emocionada, principalmente depois de conversar com Dr. Ono e cair em si que agora somos nós, o bebê e Deus para nos ajudar.

 

Fomos para casa, fui chorando no caminho, tanta incerteza, insegurança, um bebê tão novinho, nós sozinhos, mas Ole como sempre tão bom, palavras encorajadoras, ele é um presente de Deus e eu o amo muito. Nós vamos cuidar do Luquinha e amá-lo muito, juntos!

 

E assim começam "As aventuras do Lucas Mortensen"

 

 

Andréia Mortensen 

Portland - OR - EUA

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