Relato de parto de Daniela Aragão - nascimento do Bernardo

 

Sozinha na sala de pré-parto, mas mentalmente muito bem acompanhada pela Lista Parto Nosso. Na virada da lua cheia foram 16 partos em 24 horas no hospital. Apenas esse normal! Foi um parto normal e rápido, mas com episiotomia por receio do médico. Sem anestesia, enema e tricotomia. 

Minha Sexta-feira da Paixão

 

Na madrugada segunda-feira (21/03), comecei a sentir contrações regulares embora fossem só levemente dolorosas. Achei que iria entrar em TP. Na tarde de segunda elas estavam regulares, mas a cada meia hora.

 

Na terça-feira, pela manhã, me sentia da mesma forma. Liguei para o meu médico, mas ele estava dando aula na faculdade. Pediu que eu fosse até a maternidade e solicitasse ao médico que me atendesse que entrasse em contato com ele. Lá o médico me disse que eu ainda ia demorar uma semana para entrar em TP, pois meu colo do útero ainda estava se apagando.

 

Falei com meu médico novamente e ele pediu que eu fosse ao consultório na quinta-feira (24). Ao me examinar ele constatou que eu estava já com 2,5 cm de dilatação. Gente, e eu continuava só com as contrações regulares, mas sem dor... Sei lá, de repente me deu um pânico...Pensei: Caramba, vai ser hoje???? Mas assim de repente???? Sem nenhum aviso???? (rsrsrssrsr). Bom, o médico me disse que provavelmente seria de madrugada, para eu ficar calma, ir para casa, relaxar...

 

Eu vim para casa, e me senti bem mais calma aqui. Tomei um banho delicioso. Mas ao cair da noite veio a ansiedade... Ué, cadê as dores??? Por que não sinto nada??? Só contrações...regulares, mas sem dor.

 

Meu filho, o Pedro, foi dormir na casa da minha mãe. Achei que seria melhor estarmos só eu e meu marido em casa na hora H. Às 20h00, não agüentei mais a ansiedade e pedi para meu marido me levar para a maternidade.

 

Era noite da virada da LUA CHEIA!

 

A maternidade estava um caos. Bom, a figura que me atendeu me examinou e constatou que eu estava com 3 cm. Então ele me disse que me daria uma medicação e que eu voltasse para casa:

 

Eu - Que medicação, doutor?

Médico - Um hormônio para inibir seu parto.

Eu - O QUÊ?????????????????????????????????

Médico - Você ainda está com 38 semanas...

Eu - Doutor, estive no MEU médico hoje e ele mesmo me disse que eu entraria em TP nessa madrugada. Eu e o bebê estamos bem. Por que não posso entrar em TP?

Médico - Já disse, é melhor esperar...E no mais você vai começar a sentir dor.

Eu - Eu sei, eu já tive um filho.

Médico - De parto normal?

Eu - Sim, de parto normal. E com 37 semanas e 5 dias!!!

Médico - A senhora não vai tomar a medicação?

Eu - Não !

Médico - Então eu não me responsabilizo.

 

Essa foi a única frase decente que o doutorzinho disse... Afinal, a responsabilidade era realmente minha e do meu médico!

 

Fui embora fervendo de ódio e o meu marido mais ainda!!! Ele queria ir lá dar uns tapas no plantonista! Cheguei em casa e liguei para o meu médico. Ele ficou bobo. Disse que nunca ouviu dizer em inibir partos com 38 semanas.

 

Bom, combinei com meu médico que se não desencadeasse o TP até sexta-feira (25) de manhã, ele iria me encontrar na maternidade às 14h30.

 

Sexta-feira da Paixão! Fiz um camarão ao catupiry para mim e meu marido. Comemos, conversamos, rimos e ficamos imaginando se seria no feriado de sexta-feira santa que chegaria nosso bebê.

 

Liguei para minha mãe e combinei com ela que caso ficasse internada, para ela ir com o Pedro para o hospital.

 

Cheguei na maternidade às 14h35, coincidentemente junto com meu médico. Ele me examinou e constatou que eu já estava com 5 cm!!! Acreditam? E nada de começar as dores. Ele então disse que iria me internar, pois em breve eu teria o bebê.

 

Antes de sair da sala lembrei-o sobre tudo o que queria para o meu parto. Pedi a ele para não fazer o enema, pedi que não me fosse dada anestesia e que não houvesse a episiotomia. Ele sorriu e disse que o parto era meu, era eu quem decidia.

 

Bom, fui internada às 15 horas. Meu plano não era o melhor, por isso eu teria que ficar numa enfermaria. Mas, como era dia santo, Deus estava de plantão para me ajudar. Na madrugada do dia 25, (acho que por causa da lua..rsrsrsr) aconteceram 15 partos. Na hora em que cheguei estava tudo vazio e as serventes estavam lavando o local. Fiquei então numa sala de pré-parto particular. Com direito a TV, um banheiro só para mim, chuveiro e tudo o mais.

 

Na hora que estava trocando a roupa a bolsa rompeu. Meu médico me examinou e eu estava com 6 cm. Ele me disse que eu poderia andar se quisesse e qualquer problema que eu o chamasse. Infelizmente ninguém da minha família poderia ficar comigo.

 

Na verdade achei que foi ótimo ficar sozinha! Nunca tive tanta certeza das coisas. Nunca me senti tão forte. Vinha aquela dor tremenda e eu pensava: preciso andar! Preciso lembrar o que as meninas da lista escrevem! Preciso massagear inhas costas! Preciso ficar calma! Não posso pensar no tempo que falta...Preciso pensar no que já passou. Já está quase terminando! Doía muito, mas eu só respirava e pensava no bebê e em vocês.

 

Eu caminhava pelo banheiro e cada vez que vinha a contração corria para o vaso sanitário...Não sei porque, mas aquilo me dava um baita alívio. E a cada contração eu sentia jorrar um monte de líquido pelas minhas pernas. Eu estava descalça e era um pouco escorregadio, mas tão quente...Eu me sentia tão feliz por poder viver cada uma daquelas sensações sozinha, sem ninguém...É meio maluco, e eu vi algumas discussões na lista sobre o estar “sozinha” na hora H. E eu sempre morri de medo...Cheguei até pensar em desembolsar R$ 1500,00 para pagar um parto particular e poder ter meu marido comigo...Mas na hora não sentia medo, só um enorme orgulho de saber que éramos só eu e meu filho lá, naquele omento, trabalhando juntos. E fiquei feliz por não ter ninguém da minha família por perto tentando me convencer a tomar uma anestesia (pois sei que eles fariam exatamente isso).

 

Meu médico entrou umas duas vezes na sala, perguntou se eu me sentia bem. Se dava para agüentar as dores. Eu disse que estava tranqüila.

 

Às 16h00 ele me examinou. Oito cm. Ele permitiu que meu marido, meu irmão e minha mãe entrassem na sala de pré-parto. Explicou que em 1h30 o meu filho chegaria ao mundo. Ele saiu da sala às 16h10 e deixou meu marido comigo.

 

Foi então que tudo aconteceu. Gente foi a experiência mais alucinante da minha vida. Acho que deve ser como um transe. Veio aquela força e um berro que eu não pude conter. Eu só queria empurrar e gritar. Imaginem o Tarzã. Agora maginem 10 Tarzãs gritando juntos. Era assim que eu gritava. Agarrei meu marido pelo pescoço e disse:

 

Eu - Chama o Dr. João que tá nascendo!!

Meu marido - Meu amor, tenha calma, tente se controlar. Eu sei que deve estar doendo, mas ele disse que ainda demora uma hora e meia.

Eu (AOS BERROS) - GERSON, PELO AMOR DE DEUS, ACREDITA EM MIM, TÁ NASCENDO!! CHAMA ELE!

Meu marido (com jeito calmo e ponderado) – Amor, você tem que se controlar! Eu estou aqui com vc!

Eu (BERRANDO E SEM NENHUMA CALMA OU PONDERAÇÃO) - O DR. JOÃO NÃO SABE DENADA, ENTENDEU?? “ENE” “A” “DE” “A” ! N A D A!!!!!!! EU É QUE SEI. CHAMA ELE AGORA OU ENTÃO EU JURO QUE TE MATO QUANDO ME LEVANTAR DAQUI!!!!!

 

Nesse momento meu marido ficou bastante surpreso. Normalmente eu sou a calma em pessoa. Ele disse a todos que no dia do parto conheceu a leoa que existe em mim.

 

O médico entrou às 16h20 novamente no quarto. Me examinou e (pasmem) lá estava eu com 10 de dilatação prontinha para fazer o bebê nascer e totalmente transtornada:

 

Eu – DR. JOÃO, NÃO VAI DAR TEMPO DE IR PRO CENTRO CIRURGICO, TÔ SENTINDO TÁ NASCENDO, ME AJUDA!!!!

Ele - Fica calma. Vai dar tempo sim!!

E eu berrando que nem uma louca - CHAMA MEU MARIDO! ELE VAI VER! MEU DEUS TÁ NASCENDO! NÃO VAI DAR TEMPO!

O centro cirúrgico ainda não estava preparado. A enfermeira foi amarrando a roupa no meu marido pelo caminho e o médico tentava ajeitar tudo sozinho. Ao chegar no centro cirúrgico, o meu médico me disse.

 

Meu médico - Dani, se você gritar, você faz força na sua garganta. Pense no seu filho. Em vez de gritar, respira fundo e faz força para baixo. O nenê tá fazendo a parte dele. Você precisa fazer a sua.

Eu - DR. JOÃO, ACHO QUE EU FIZ COCÔ!!!!!

Meu marido - Ela fez cocô??????????

Eu - CALA A BOCA, EU FALEI COM O DR. JOÃO!!!

Médico - Se importe só com o seu filho. Respira fundo e faz força.

Nesse instante, eu com uma cara terrível, fazendo mil caretas, percebo um flash. Era meu marido tirando fotos para registrar TUDO! Não sei o que me deu, mas eu fiquei furiosa: - Gerson, dá para largar essa máquina!

Meu marido: - Dani, a gente tinha combinado de bater fotos do parto, lembra?

Eu - Larga isso AGORA!

Meu marido - Não vou largar porque depois vc vai se arrepender!

 

Ao mesmo tempo que eu brigava por causa da máquina, o meu médico tentava me explicar que iria precisar fazer a episiotomia.

 

- Dani, vou ter que fazer a episiotomia para te ajudar, tudo bem?

- Não dá mesmo sem, dr. João?(Sempre berrando)

- Eu prefiro fazer! 

Bom, naquela altura, aquela dor maluca, meu marido tirando fotos, eu estava em desespero. Aí de repente pensei o famoso:F* (pasmem! Ele também realmente existe).

 

Aí respirei bem fundo e quando senti aquele transe do expulsivo fiz força, força, força até ouvir aquele chorinho gostoso e como se fosse mágica tudo sumiu...Não havia médico, nem fotos, nem meu marido, era só uma emoção tão grande, uma vontade de chorar, um choro que estava retido durante toda aquela última semana. E o choro veio forte na hora em que o médico disse: - É um meninão Dani, como vai se chamar? Eram 16h50!

 

Vi meu marido pegando o bebê no colo. Foi ele que o trouxe até meu peito. Gente, eu só queria chorar e ficava repetindo para o meu marido: Você viu, eu consegui, eu consegui, eu fiquei lá sozinha, eu não tomei anestesia, eu consegui...

 

São indescritíveis a emoção, a satisfação e felicidade que senti e sinto até agora. O Bernardo foi o 16º parto daquela maternidade num período de 24 horas, desde às 17h00 do dia 24 até às 17h00 do dia 25 de março. E foi o ÚNICO que veio ao mundo de parto normal!

 

Para vocês terem uma idéia, na hora em que fui para o quarto as enfermeiras conversavam:

 

Enfermeira 1 - Foi cesárea?

Enfermeira 2 - Não, normal.

Enfermeira 1 - Normal???? Que milagre, ninguém mais faz normal nesse hospital.

Enfermeira 1 - Querida, você não pode se levantar ainda, por causa da anestesia....

Eu (interrompendo) – Eu não tomei anestesia...

Enfermeira 1 – Ela não tomou anestesia? Olha na papeleta...

Enfermeira 2 – Não, não tomou...

Enfermeira 1 (para mim) – Querida, qual o nome do seu médico para eu passar 

bem longe do consultório dele....

 

Pode isso? Virei contra-propaganda do meu médico.

 

Bom, o Bernardo é super tranqüilo, nasceu com Apgar 10/10, 3,075 Kg e 48,5 cm. Mamou sempre super bem e meu leite desceu em 24 horas. Não tive nenhuma fissura no seio sequer...É inacreditável a benção que foi esse menino.

 

Só para concluir, a Ana Cris (doula) mandou um questionário de recadastramento há um tempinho atrás e teve uma questão que não quis responder naquela hora e agora eu quero responder:

 

O que eu aprendi na lista:

 

Aprendi que por mais medo que a gente tenha, dá sempre para dar mais um passo, acreditar na gente mesmo. Eu tive meu primeiro filho de parto normal, com enema, anestesia, tricotomia e episiotomia. Achei maravilhoso. Mas agora, ter sentido tudo, foi tão mais...VIVO, sabe. Sei que não consegui escapar da episiotomia (talvez até por que meu médico mesmo não estivesse disposto a arriscar tudo), mas não ter feito as outras coisas do pacote, me deram a certeza de que (se houver uma próxima vez) posso ir ainda mais longe.

 

E mais do que tudo, aprendi que mesmo sozinha, dá para gente se sentir muito, mas muito, mas muito amparada mesmo. Não sou de São Paulo, não conheço nenhuma de vocês, nunca pude ir às reuniões do Gama e mesmo assim, nas quase duas horas que passei sozinha, com as dores do parto, naquele hospital frio, me lembrava linha por linha de tudo que tinha lido, das palavras de apoio que vi, das experiências que vivi através do parto de cada uma de vocês.

 

 

Daniela Aragão

São Paulo - SP

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