Relato de parto de Danielle Balassiano Ptak, nascimento do Felipe

Um parto domiciliar tranqüilo – não programado.

 

Eu sempre tive uma visão muito positiva de parto e amamentação, minha mãe teve as 3 filhas de parto normal hospitalar, amamentou as 3 e sempre tratou desse assunto de maneira natural, assim como meu pai, que nasceu em casa como seus 4 irmãos, fazendo com que eu tivesse certeza de que esse era o normal e que assim seria comigo.

 

Em março de 2002 engravidei da Letícia e hoje em dia posso dizer com certeza que tive um parto normal por sorte, mesmo que repleto de intervenções. Fui assistida por uma médica do meu convênio, sem nenhuma indicação; ela sempre foi muito solícita e com certeza fez tudo que estava no seu limite, e eu por minha vez, tive a sorte de não ter uma bolsa rota, de ter respondido ao soro com ocitocina. Naquela época isso tudo pra mim era normal, eu não tinha o conhecimento de hoje e insisti da primeira à última consulta que queria um parto normal.

 

Em meados de 2003, fuçando na net, caí no site das Amigas do Parto e dali pras listas de discussão foi um pulo. Logo percebi que o meu parto, maravilhoso até então, principalmente se comparado ao esmagador número de cesáreas das mulheres ao meu redor, não tinha sido tão normal quanto eu imaginava. A episiotomia, que até então não me incomodava, não tinha razão de ser, nem a lavagem, nem a tricotomia e a indução. E uma vez inserida na Partolândia, através das listas de discussão (que vício!), fui absorvendo muita informação.

 

Então, a cada relato legal que eu lia, também ia me dando vontade e curiosidade de passar por um parto diferente; queria ver até onde os meus limites iriam e o que era o tão bem almejado Parto Natural!! Fui lendo, me informando, esperando o momento em que decidíssemos ter outro filho. Um mês sem pílulas e lá estava a semente plantada.

 

Desde o começo acredito que tudo já deu certo, porque comecei de maneira correta: escolhendo um profissional engajado na humanização, que pensasse como eu. Ah, e logo chamei a Ingrid pra ser minha doula, afinal ela tinha sido a primeira pessoa que eu conheci na antiga lista Amigas do Parto; já nos conhecíamos pessoalmente e eu sabia que me sentiria bem à vontade com ela. Diferentemente de muitas das participantes das listas, eu não buscava um VBAC ou um parto normal, por essa experiência eu já tinha passado, eu lembro que fui bem clara com o Xico, médico que eu escolhi: eu estava ali buscando um parto melhor que o primeiro, sem intervenções desnecessárias, queria uma experiência diferente. E é muito bom você não ter que ficar a cada consulta lembrando e relembrando quem te acompanha, o que você quer e o que não quer, e não ter a preocupação de que na hora P você vai ter que ficar tensa, em alerta, de olho se o cara vai ou não te enrolar. Eu estava certa de que bem acompanhada, se alguma coisa desandasse, eu poderia acreditar e confiar no médico pra me ajudar a tomar a decisão que coubesse no momento.

 

Minha gravidez foi muito tranqüila, assim como a primeira. E gravidez de segundo filho é diferente, a gente sabe que o bebê vai nascer, independente de ter enxoval, berço, carrinho e perfumarias em geral. Dessa vez eu não estava criando tanta expectativa em cima do bebê como na primeira, e sim em cima do parto, era um momento meu. Nisso, o meu marido me respeitou sempre, não questionava muito os detalhes, mas a partir do momento em que eu quis trocar de médico, ele me deixou bem a vontade; na cabeça dele esse era um momento meu, eu é quem tinha que me sentir à vontade com o profissional escolhido. Diferente da primeira vez, quase não fiz exames e depois do 3º mês, nada de polivitamínicos.

 

A partir de 38 semanas completas, estava impossível conter a ansiedade do marido. Como nossa filha nasceu com 38 semanas e 3 dias, ele encasquetou na cabeça que o segundo filho viria até antes, apesar do Xico sempre dizer que isso era bobagem; que o que poderia ser mais rápido era o TP, mas que nada era regra. O que mais me enlouquecia era a eterna pergunta que não quer calar: Pra quando é? Daí eu respondia: Qualquer hora! Nossa as pessoas ficam tão surpresas, parecia que o Felipe ia sair escorrendo perna abaixo na rua, no mercado... O que fazia o povo ficar menos surpreso por estarmos esperando era o fato de eu ter um PN prévio. Imagino como sofre quem aguarda um VBAC. Desde 36 semanas as minhas consultas se tornaram semanais, e até a última consulta, meio dia antes do parto (40 semanas e 2 dias) e a DPP que estava no meu cartão de gestante, nada de dilatação e nenhum sinal de parto a vista!

 

Terça-feira 24/Jan /06

 

Fui na minha consulta da semana em torno de 13:30h da tarde; o Xico fez um toque com mãos de fada, sem segundas intenções, rsss. Impressionante, mas o toque dele não incomoda em nada, mal dá pra sentir. Mais uma vez nada de dilatação, talvez um pequeno orifício ameaçando aparecer. Ah, o Felipe permanecia com o dorso à direita. Desta vez não deixamos nenhuma consulta agendada, havia uma expectativa de que o Felipe viria até o fim da semana. Voltei pra casa, na última semana parei de trabalhar, e como a Letícia tinha ido passar o dia na casa da minha mãe, aproveitei pra ficar de pernas pro ar, vendo TV e cochilando. À noite saímos, eu e Geraldo pra jantar, visto que a Lele resolveu dormir na casa da avó. Fomos andando até o restaurante japonês; até então tudo tranqüilo, chegamos em casa em torno de meia noite, ainda fui fuçar meus e-mails e devo ter deitado em torno de 1h da manhã.

 

Quarta-feira 25/Jan /06 (40 semanas e 2 dias) - A DATA PROVÁVEL DO PARTO!!

 

Eram 2:30h quando acordei com um misto de cólicas e dor de barriga. Fui direto pro banheiro e como tinha comido bem no jantar achei que se tratava só de vontade de evacuar. Mais duas idas ao banheiro e as cólicas se intensificaram de forma impressionante, totalmente diferente do parto anterior, no qual eu senti uma cólica muito leve na véspera e dormi bem a noite inteira. Não queria acordar o Ge porque achei que ainda demoraria muito e a ansiedade dele me atrapalharia. Exatamente as 3:08h mandei um e-mail pra Ingrid pra saber se ela estava on-line, como ela não respondeu liguei pro celular dela. Ela não atendeu, mas me retornou em seguida, nesse momento eu já não estava conseguindo falar muito bem, as contrações começaram muito freqüentes e eu só tinha vontade de ficar sentada no vaso, rsss!! Ela me sugeriu tomar um banho quente e tentar cronometrar as contrações. Pelo tom da minha voz ela sacou que não ia conseguir chegar antes do bebê nascer; nós não moramos perto e a maternidade para onde eu achava que ia também não é perto da casa dela. Ela me disse logo: “Tô sentindo que você vai me sabotar!!” A única coisa que eu pensava: “Caramba, não acredito que eu já estou pedindo arrego, mal começaram as contrações e eu já to me contorcendo toda”. (mal sabia eu quem em 1 hora já estaria parindo)!!

 

A essa altura o Geraldo já tinha acordado, estava uma pilha, arrumando a bolsa dele pra levar para o hospital enquanto eu tomava um banho com relógio na mão. As contrações eram super ritmadas, de 30 em 30 segundos, saí do banho umas 3:30h, me enrolei na toalha e deitei no chão do banheiro. Falei com a Ingrid de novo e achamos melhor ligar pro Xico, porque o que eu sentia não era nem de perto o que eu senti quando já tinha chegado na maternidade, na outra gravidez. Sentada no vaso liguei pro Xico, ele falou que ia ligar pra Perinatal, pra avisar que estávamos indo e já me retornava. E volto eu pro chão do banheiro!!

 

Eis que eu sinto uma dor forte, que o tempo todo parecia uma dor de barriga fortíssima, sento no vaso e vejo a bolsa descendo íntegra e estourando na queda. Pronto, depois disso o Felipe literalmente escorregou, eu sentia ele no meu quadril. Coloquei a mão entre as pernas e dava pra sentir a cabeça pronta pra sair. Às 3:47h o Xico liga, o Ge atendeu porque eu não tinha condições de falar, avisando que estava tudo ok pra nossa ida pro hospital e querendo saber se eu queria que o anestesista fosse. Minha resposta foi uma só: Não vamos a lugar nenhum, eu não tenho condições de sair de casa e a cabeça tá coroando. Diz o Xico, que pelos urros que ele ouviu enquanto falava com o Ge, não tinha dúvidas de que estava nascendo.

 

Enquanto aguardávamos a chegada do Xico, o Geraldo tinha ligado pra minha mãe, e tinha também acordado a babá da Lele pra pedir ajuda. Ela me ajudou a ir pra minha cama antes que o Felipe nascesse no vaso, e eu fiquei deitada de lado com as pernas literalmente fechadas!! O Xico veio bem rápido, coitado esqueceu até a lanterna do carro acesa! Ele chegou e constatou que estava nascendo mesmo, então pediu umas toalhas, fraldas de pano, saco plástico, o básico do básico, e ainda bem que a Zezé (babá) ainda estava em casa, apesar de eu ter dito pra ela ir embora, já que a Lele estava na minha mãe! Pedi pro Xico me deixar mais verticalizada, pra evitar que lacerasse muito; ele e a Zezé conseguiram me colocar encostada na cabeceira da cama, abri as pernas e na primeira contração, as 4:18h, o Felipe veio. Ah, o Xico lembrou de apagar as luzes, eu tava em alfa não ia lembrar nunca!!!

 

E a chegada dele foi triunfal, choro forte, veio direto pro peito. Ele saiu de maneira perfeita, de uma vez só, nenhum problema pelo fato do dorso estar à direita. Ah, não tinha nenhuma volta de cordão.

 

Em seguida chegaram os meus pais e um pouco depois o pediatra.

 

O Felipe ficou mamando uns 40 minutos direto depois de nascer, e depois disso, resolvi tirar ele um pouco do peito pra cortar o cordão, porque a placenta tava me incomodando. Ele foi pras mãos do Ricardo (pediatra) ser avaliado, enquanto a placenta (estava com grau três) saía. Não tínhamos balança nem metro, mas pela pesagem dois dias depois estima-se que o peso dele foi 3700 kg e 50 cm de altura. O apgar foi 10/10 e ele acabou nem tomando a vitamina K, que até então o pediatra fazia questão.

 

Depois disso, a “galera” foi comer pão de queijo com café na sala enquanto minha mãe vestia o neto na minha cama. Eu continuei enrolada nas toalhas porque tive uma laceração superficial e a parafernália do Xico pra dar os pontos estava no consultório. Ele voltou umas 8 horas pra terminar o serviço, depois disso a minha casa virou sala de visitas, foi um entra e sai o dia inteiro, mil telefonemas e acho que a gente deve ter contado como tudo aconteceu umas 999 vezes!

 

Apesar de nunca ter curtido, nem almejado a idéia de ter um parto domiciliar, adorei a experiência!!! Gente, que tranqüilidade ver o bebê nascer e ficar do seu lado o tempo todo, sem nenhuma enfermeira deixando ele chorar à toa na incubadora ou dando complemento desnecessário. Como o Felipe é um bebê calmo... Um detalhe: dois dias antes do parto, a minha cunhada me ligou pra saber se eu estava bem e pra contar que tinha sonhado que o Felipe tinha nascido em casa, que não tinha dado tempo de chegar na maternidade. A filha da Zezé (babá) também sonhou a mesma coisa, e no caminho pro restaurante, umas 6 horas antes do Felipe nascer, o Geraldo me perguntou: o que aconteceria se não desse tempo de chegar na maternidade como a Dóris sonhou? E eu respondi: nasce em casa, ué!

 

Eu fui e ainda estou sendo bombardeada com milhões de perguntas, porque no meu mundo real, o parto domiciliar é uma pratica abolida há décadas. Perguntaram-me até como eu não cogitei a idéia de chamar uma ambulância quando eu senti que ia nascer! E se não era inseguro deixar de ir ao hospital depois de nascido o bebê!! Isso nunca passou pela minha cabeça, essa é a diferença de estar sendo bem assistida e ter confiança na capacidade do profissional que escolhemos e nas informações que buscamos. O Xico tem vasta experiência em parto domiciliar, e mesmo que ele não tivesse chegado a tempo, o bebê ia nascer. As pessoas não conseguem mesmo encarar o parto como um evento fisiológico, muito triste mesmo.

 

Sábado que vem, o Felipe completará um mês e está tudo bem tranqüilo, hoje demos uma pesada nele e já esta com 4.700kg e 56,5 cm; ele mama super bem, é craque na pega! Meus pontos também estão resolvidos: os pontos da laceração são bem menos incômodos que os da episio. Os da episio são profundos, ficam latejando, os da laceração foram superficiais.

 

Obrigada a todos os profissionais e participantes das listas que não imaginam como contribuem nos colocando em contato com tanta informação. Obrigada a Ingrid que mesmo não estando do meu lado contribuiu muito para que eu ficasse tranqüila e confiante durante todo o processo. À equipe que também foi perfeita, se colocando super- disponível acima dos imprevistos, fazendo com que a hora do nascimento fosse um mar de rosas. E somem à equipe médica a assistente Zezé, que como babá se saiu uma excelente enfermeira! Ao meu marido, obrigadíssima por ter conseguido superar as expectativas e ter conseguido lidar com o inesperado de maneira tranqüila e sóbria!

 

Danielle Balassiano Ptak 

Rio de Janeiro- RJ

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