Relato de parto de Daniela Oliveira - nascimento da Ana

Daniela, uma mulher que planejou um inesquecível parto natural em casa de parto, mas acabou sentindo na pele o tratamento frio, padronizado e desrespeitoso de um parto hospitalar padrão.

 

Nasceu, na segunda dia 22/11, minha pequena Ana. Nem tudo foi e está sendo como eu e meu marido tanto planejamos, sonhamos e ficamos horas imaginando.

 

No domingo, tinha consulta na casa de parto de Sapopemba. Saímos de lá muito felizes pois segundo a enfermeira, estava com 1 cm de dilatação e com contrações fortes. Mesmo assim, não sentia dores, apenas a barriga endurecer.

 

À noite, resolvemos ir caminhar e esperar as dores. Meia noite e quarenta, começo a sentir dores de 5 em 5 minutos; ficamos a noite em claro contando e decidimos que quando estivessem de 3 em 3 minutos ou fosse 5 da manhã, sairíamos de casa para não pegar trânsito, o que chegasse primeiro.

 

Às 4:30h passam a ser de 3 em 3 minutos; tomei um super-banho, tomei café, pegamos as bolsas e saímos. Mesmo estando constantes, as dores eram bem suportáveis.

 

Saí achando que estaria com uns 4cm, pelo tempo que já estava sentindo. Para nossa surpresa, estava apenas com 2 cm, mas resolveram me internar, pois as contrações tinham picos bem altos.

 

Falaram pro Ro ir para casa dormir um pouco, almoçar e voltar só após o meio-dia. Disse que fosse, que me sentia muito bem lá e estava tranqüila, falei que ligasse para a Ana Cris falando que estava em trabalho de parto, mas que estava tudo muito bem.

 

Havíamos combinado que sentiríamos como estava indo e caso desse um desespero, sei lá, qualquer coisa, chamaríamos a Ana para usar seus super-poderes.

 

Fiquei lá sendo muito bem tratada, tomei chá de gengibre, caminhei, cochilei, me deram um livro para ler de relatos de parto das Amigas do Parto, estava tudo muito tranqüilo.

 

O Rodrigo chegou, ficamos conversando, dando risada, as contrações estavam entre 5 em 5 minutos, mas nada de dores insuportáveis. À tarde, perguntaram se queria ir para a banheira; fui e ficamos mais ou menos 1h lá.

 

A enfermeira Mizumi passou depois e disse que eu estava com cara de pouca dilatação, e resolveu fazer um exame de toque. Fomos conversando e, pra minha surpresa, estava apenas com 3 cm, das 6 da manha até as 17h só tinha aumentado 1cm. Para piorar, ela achou meu líquido um pouco escuro e desconfiou que havia mecônio.

 

Comecei a chorar e pedir que, por favor, não me transferisse. Então, decidiram estourar a bolsa para verificar se havia mecônio mesmo. Infelizmente tinha, mas estava bem diluído e ela induziria com soro e permitiria que eu ficasse. Foi só aí que o Ro lembrou de ligar p/ a Ana Cris.

 

As dores passaram a ser bem mais fortes, fui pro chuveiro, para a bola, para a banheira, passei a dar uns gemidos altos e às vezes soltar uns palavrões. Falava pro Ro fazer parar e, quando ele vinha encostar em mim, mandava tirar a mão.

 

A Mizumi se despediu de mim às 20h e eu pedi para a nova enfermeira fazer mais um toque, pois tinha medo de continuar com a dilatação bem lenta, apesar das dores terem triplicado. Ela fez o toque e constatou 7cm, mas disse que o líquido havia ficado mais escuro e resolveu me colocar no cardio sei lá o que, para escutar o coração do bebê. Ali eu comecei a me desesperar, vi que ela ia me transferir.

 

O psicológico com certeza influi, pois parecia que as dores tinham quintuplicado ali na hora. Ali, na mesa, deitada, me descontrolei e falava sem parar para a Rose (a enfermeira): “Rose, Rose, você sabe o que você vai fazer comigo, né? Vai me transferir e me farão uma cesárea! Rose, por favor, eu conheço casos de bebê com mecônio em parto normal, não faz isso comigo!”

 

Coitada, ela parecia sentir meu desespero, tentava me acalmar, e disse que ia ligar para o hospital do meu convênio e conversar com a médica. Fiquei com a auxiliar de enfermagem, dona Marlene; comecei a gritar: ‘Tira esse soro de mim que eu não vou ficar sentindo dor à toa, porque assim que chegar no hospital vão me fazer uma cesárea!’.

 

Queria levantar, tirar as cintas da barriga. Foram os 20 minutos mais longos da minha vida. A cada contração que vinha, pedia para tirar a cinta e o soro, que tudo tinha sido inútil.

 

O Rodrigo foi ficando desesperado e queria ligar para a Ana Cris. Eu disse que não, que nada adiantaria, que ninguém mais podia me ajudar. Coitado, estava muito desesperado também.

 

A Rose voltou, disse que havia conversado com a médica e que ela garantiu que não faria a cesárea se não fosse necessário. Olhei p/ ela e disse: ‘você sabe, Rose, que não vai ser assim. Tira logo isso de mim’.

 

Tiraram e me levaram para a ambulância. Comecei a falar: ‘vai nascer no caminho, vou ter esse bebê sozinha’; a Rose disse que iria comigo na ambulância e o Ro foi na frente com o motorista.

 

Parecia tudo um sonho. Deitei de costas para a Rose, olhos bem abertos, olhando para a parede branca interna do carro. Não acreditava no que acontecia.

 

A Rose pedia por favor para eu não a considerar ruim, porque realmente ela não poderia ficar comigo lá. Que meu bebê ia precisar de um pediatra, que não era necessário cesárea; tentava me acalmar de todas as formas.

 

Chegamos ao hospital uns 20 mim depois. Daí pra frente, foi tudo tão rápido e desesperador! A diferença no tratamento é brutal, chocante: me fizeram sentar na cadeira de rodas, subimos para o centro obstétrico, mandaram o Ro descer para fazer a ficha e eu gritava: ‘Vem, Rodrigo, cadê meu marido?’, e a mulher não deixava ele passar.

 

A Rose entrou comigo até uma sala tipo enfermaria. Quando encontrei a médica comecei a pedir uma anestesia; aquela dor toda era inútil, pois eu sabia que ela faria uma cesárea em mim.

 

A médica, muito, muito grossa, colocou a Rose para fora, jogou meus papéis longe, bateu com as mãos na maca e falou que quem mandava era ela, e que ela faria o que fosse o melhor. Que deitasse para ela fazer o toque. Bem nessa hora me veio outra contração, e não conseguia ficar com a perna aberta de jeito nenhum.

 

Começamos a bater boca, e só fui deixar o toque ser feito após a contração. Daí em diante, foi tudo muito rápido, ela falou: ‘põe o soro, que o bebê é pra já. São 8 dedos!’.

 

Mandou que segurasse a perna e fizesse força na contração. Estávamos na enfermaria, e pensei: ‘graças a Deus, vai nascer aqui, não vai dar tempo de ir para a sala de cirurgia’; e, como não havia nada cortante próximo, pensei: ‘não vai ter episio também, que bom, que bom!’.

 

Fiz força 2 vezes, e ela falou isso mesmo: “vai nascer, levanta e vem comigo’. Fiquei confusa, desci da maca segurando meu próprio soro e andava de um lado pro outro do corredor, até chegar na porta da sala de parto, tão diferente do quarto aconchegante da casa de parto. Deitei na cama fria, recebi de presente uma anestesia local e um super-corte. Foi tão rápido, fiz força umas 3 vezes e ela falou: ‘não faça mais, pois já saiu’. E eu muito confusa, não conseguia acreditar, pois não sentia nada. ‘Cadê o anel de fogo, cadê?’.

 

A pediatra aspirou o bebê e, depois, senti retirarem o corpinho. Não teve chorinho, não. Vi meu bebê e fiquei ali, sentindo ser puxada por dentro. Senti outra picada, estava sendo costurada. Me sentia toda perdida.

 

Vi a bebê de relance sendo levada, diziam: “'é uma meninona, grande”.

 

Me deixaram lá sozinha, e chorei, chorei muito. Chorei por mim, pelo Ro, pelo bebê. Nada havia saído como queríamos. Tínhamos 2 máquinas e uma filmadora para o parto, e agora estava ali sozinha, sem ver o bebê.

 

Logo depois, a faxineira saiu da sala e eu vi minha placenta lá dentro do saco de lixo. Chorei muito mais. Tantos planos para essa placenta. Fiquei quase uma hora sozinha chorando, até me levarem pro quarto.

 

A bebê nasceu pesando 3,620Kg, medindo 49 cm, às 22:23h.

 

Não a vi. Disseram que tinha que ficar 6 horas no berçário. No outro dia, às 5h da manhã, tiraram o soro de mim e pedi pelo bebê. ‘Ela não vai vir, aspirou o mecônio, foi direto para a UTI’. Até hoje, ainda não peguei minha filha nos braços, não amamentei. Já estou em casa, só a vejo uma hora por dia pelo vidrinho, e digo a todas: a dor do parto é infinitamente menor que a dor que sinto agora.

 

Fora a acusação de todos de que a culpa foi minha, que inventei essa história de casa de parto.

 

Sei que não é, tem casos na família de bebê com mecônio, foi feito cesárea e, mesmo assim, ele aspirou. Tem casos de parto normal com mecônio e nada aconteceu com o bebê. Mas vai colocar isso na cabeça de algumas pessoas.

 

Meu marido me apóia em tudo, e eu fiquei mais apaixonada por ele, por toda a força que vem me passando.

 

Todos os dias, choramos feito crianças pela nossa filha, e decidimos que, no nosso próximo filho, faremos tudo igual. Ou melhor, estamos desde já planejando nosso parto domiciliar.

 

 

Daniela Oliveira 

São Paulo - SP

© 2015 | Rede Parto do Princípio

  • b-facebook
  • Twitter Round
  • Instagram Black Round