Relato de Parto de Laura Prada - nascimento da Serena

Parto natural hospitalar super rico em detalhes e percepções de uma ‘Pacha Mama’. Emocionante!

 

Era dia 17 de outubro, 8h30 da manhã quando a bolsa estourou. Naquela manhã havia virado a lua, lua cheia. Naquela madrugada eu tinha tido outro ataque de ansiedade. "

 

Meu Deus, será que este nenê não vai nascer nunca? Já completei 42 semanas e nada. Não quero induzir o parto!"

 

Meu marido, Alexander, calmo como sempre, me deu uma bronca: "Seu corpo é sábio, acredite nele, respeite-o e respeite o nenê. Quando ele estiver pronto ele nasce, tá tudo bem!" Estava tudo bem mesmo: tínhamos feito o cardiotoco e o ultrasom uns 4 dias antes e tava tudo legal: placenta grau 2 sem calcificação, batimento do nenê 130 sem desaceleração, etc. Tudo bem, tudo bem, vou me acalmar e esperar...

 

Alex saiu umas 8h00 pra trabalhar e eu deitei um pouco mais pra dormir. Senti então um puxão na barriga, lá embaixo, não muito forte. Depois de um tempinho quis fazer xixi. Levantei e fui no banheiro, me limpei e escorreu pela perna. Limpei de novo, escorreu de novo. Ué, por que tá escorrendo? A boooolsaaaaa! Peguei na hora uma toalha pra ver a cor e o cheiro. Rosinha e com um cheirinho de água sanitária.

 

Indescritível a sensação daquele momento!! Meu Deus, o nenê vai chegar.

 

Esperei tanto por este momento que parecia que não ia chegar nunca e agora, de repente, chegou! Chamei minha mãe, mostrei a toalha e liguei imediatamente pro Alex: "Gatinho... Então, a bolsa estorou..." E ele: " É? Nossa! Então eu volto pra casa?" "Claro né, hahaha, vai nascer..."

 

Liguei também pra Ana Cris e pro Dr. Jorge, os dois calmíssimos do alto da experiência que tem: "Ótimo, boas notícias. O líquido tá claro? Então relaxa e vamos aguardar". Coloquei uma toalha branca no meio das pernas e fiquei monitorando o líquido.

 

Chegou Alex, todo feliz e já começou a tirar fotos. Ana Cris passou em casa, verificou se tudo estava bem, deixou umas homeopatias e foi cuidar da vida.

 

Almoçamos, tiramos mais fotos, tentamos medir as contrações que vinham, mas ainda não estavam regulares. Lá pelas 4 da tarde, elas se intensificaram e pegaram ritmo. Liguei de novo pra Ana Cris: "Ah, agora começou o TP, daqui há pouco eu estou aí". Ligamos também pro Dr. Jorge e avisamos que o TP tinha começado. Ele sugeriu que fôssemos ao consultório para ele poder me examinar ou que a Dra. Mema fôsse até em casa. Pensei comigo: "pegar trânsito no fim da tarde em SP, com as contrações aumentando? Não, melhor a Dra. Mema vir aqui..." Foi a melhor coisa que fizemos. Ela chegou em casa umas 18h30 e logo já me fez um toque (o único de todo o TP): 4 dedos de dilatação. Estamos indo bem.

 

Minha mãe foi então fazer um café e um lanche para as "visitas" enquanto o Alex ia na farmácia comprar o antibiótico que eu tive que tomar por causa do streptococos positivo.

 

Ficamos nós 4 - eu, minha mãe, Ana Cris e Dra. Mema - lanchando e fofocando. Minha mãe mostrou as medalhas dela (ela é campeã mundial de natação master), Mema contou das suas gravidezes difíceis, do casamento e da lua de mel dela e Dr. Jorge, Ana Cris deu risada de tudo (inimitável e inconfundível a risada da Ana Cris.), enquanto eu andava, sentava, ficava de cócoras etc. entre uma contração e outra.

 

Um parênteses aqui: nossa gatinha, a "Blanca" não saiu do meu lado o dia todo. Onde eu ia ela ia atrás, miando..parecia que sabia que algo especial estava acontecendo.

 

Bem, nesse clima "família" que nós estávamos, meu marido começou a tentar me convencer a fazer o parto ali mesmo, em casa: "Olha só, a doula e a médica já estão aqui, vc já tá com 4 dedos de dilatação, tá tudo indo bem, ir pro hospital pra que?" E tava mesmo um clima ótimo que me fez até pensar na possibilidade, mas sei lá, mudar os planos assim de repente? Não sei. A gente ligou de manhã para o hospital Einstein pra saber se tinha algum quarto labour disponível e não tinha, então eu combinei assim: se tivesse algum labour vago a gente ia pro hospital, se não, ficávamos em casa. Alex ligou lá e pra decepção geral e alívio da minha mãe, que tava vendo que o parto ia acabar sendo lá mesmo, tinha um labour vago.

 

Vamos para o hospital então. Tomei um banho, pegamos as malas e fomos em carreata pro Einstein. Isso já eram umas 9h da noite. Chegamos no hospital e daí aconteceram as coisinhas chatas, que são as desvantagens de uma parto hospitalar: sai o clima familiar e entra o clima "institucional". Marido pra um lado fazendo a internação com direito a "você senta aí e fica quietinho" e eu pro outro, vestindo a roupa do hospital, botando etiqueta de identificação, etc.

 

Já estava deitando pra começarem a fazer um cardiotoco quando chega Ana Cris e Mema: "Deixa, a gente faz lá em cima no quarto. E não fizeram nada, hehehe".

 

Subimos imediatamente pro quarto de parto, onde já estavam Dr. Jorge e Dra. Andrea batendo papo e esperando a gente. Entramos todos, fechamos a porta e o clima familiar voltou quase por completo. Ana Cris já foi encher a banheira pra mim, tirei a roupa do hospital, o Alex do meu lado o tempo todo, e as contrações apertando. Até aqui as dores tinham sido perfeitamente suportáveis. Quem tem cólicas menstruais fortes como eu já tive, sente essas dores todo mês. Mas lá pra umas 11h da noite - não sei ao certo porque chega num ponto do TP que você perde a noção do tempo - a coisa começou a pegar.

 

Falei pra Ana Cris que queria outro exame de toque pra saber a evolução e ela: "Pra que? Não vai mudar nada". Realmente, pra que né? A gente tem essa mania de super informação. Se me fizessem toque e eu estivesse com 7 ou 8 dedos ia ser uma alegria, e se tivesse com 4 ou 5 dedos ainda? Ia ser péssimo, eu ia ficar mal, então melhor não saber mesmo.

 

Entrei na banheira mas fiquei pouco tempo porque me deu vontade de fazer xixi e cocô. Fui pra privada e lá fiquei durante um bom tempo. Depois fiquei de pé, apoiada no Alex e de lá fomos pra banqueta de cócoras, a famosa, em que tantas mulheres já pariram. Colocamos a banqueta no box do banheiro, um banquinho atrás de mim pro Alex sentar e uma toalha no chão pra Ana Cris e só, mais nada e mais ninguém.

 

A equipe médica toda: Dr. Jorge, Dras Mema, Andrea e Ana Paula e minha mãe ficaram o tempo todo do lado "de fora" no quarto, do outro lado da porta do banheiro, esperando a hora H.

 

Aliás, minha mãe também se superou porque depois de mim foi quem mais sofreu as "dores" deste parto. Quase furou o corredor do hospital de tanto andar de um lado pro outro enquanto eu dava uns urros de novela e lá pelas tantas ela virou pro Dr. Jorge: " Por favor, dá uma anestesia nela!" e ele: "Mas ela tá indo bem, nem tá pedindo anestesia." e ela: "Então dá em mim porque EU não aguento mais!!"

 

Lá pela meia-noite, duas enfermeiras entraram no banheiro com um porta soro: "Vamos ter que aplicar um medicamento em você, ok?". Era a segunda dose do antibiótico. Essa hora foi bem chata, eu já delirando de dor e a enfermeira pegando minha veia. Ainda errou e teve que pegar duas vezes, mas tudo bem, porque fora isso não teve mais nada de ruim.

 

As dores aumentando, o Alex respirando no meu ouvido já que eu estava parando de respirar durante as contrações. Nos intervalos, ele susurrava no meu ouvido "Você é uma guerreira", "Gatinha, você é a Patcha Mama (grande mãe)".

 

Alex foi tudo pra nós - pra mim e pra Serena - neste parto. Ele não saiu do meu lado em nenhuma contração, não ficou me dando ordens ou falando o que fazer, só me abraçou e me disse coisas boas e não se desesperou no finalzinho quando eu comecei a falar que não ia aguentar. Posso dizer que ele pariu comigo, junto, como se estivéssemos mesmo os dois parindo nossa filha. O Dr. Jorge disse numa consulta "que marido! Com um marido desses nem precisa de doula" e realmente eu tenho muita sorte de ter um marido maravilhoso que só me apoiou e me respeitou do início ao fim da gravidez.

 

E por falar em doula, este é outro tema que não posso deixar de comentar neste relato. Tenho que confessar que antes do parto eu não tinha a menor consciência do papel de uma doula, e subestimei totalmente sua participação. Achei que Ana Cris ia fazer umas massagens, indicar umas homeopatias, dar uma apoio moral e só. Como eu estava enganada. Ana Cris também foi tudo pra mim durante o parto.

 

Eu fiquei meditando depois do parto sobre isso: a doula, o papel dela é basicamente ficar na sua frente com aquela cara de paz e de "está indo tudo bem", mas tão convincente, que você realmente se fortalece com isso. E de vez em quando, nos momentos em que você pensa em desesperar, que no meu caso foi começar a falar "não vou conseguir", ela falar, com uma voz baixinha e macia (totalmente diferente da Ana Cris numa conversa normal): "já conseguiu, tá no finzinho" mas de novo, de uma forma tão "paz" e tão tranquila, que você acredita e toca em frente. É impossível pra quem nunca passou por um parto natural saber a diferença de você estar com uma doula ao seu lado ou não.

 

Então chegou o expulsivo, a hora que você já está com 10 dedos de dilatação e a nenê começa a baixar e daí a dor vai até a estratosfera. Meu corpo todo tremia a cada contração, eu podia sentir a energia toda centrada no útero, parecia até que meu corpo todo era o útero naquele momento e o resto todo eram apêndices.Uma sensação muito louca.

 

Com os cinco hormônios atuando: ocitocina, prolactina, endorfina, adrenalina e não sei mais que ina. Comecei a urrar de dor e de delírio. Isso é interessante, a diferença de dor e sofrimento, que normalmente estão associadas. Eu estava com MUITA dor, incomparavelmente a maior que já tive na vida, mas estava sofrendo?

 

Dor é uma definição objetiva, concreta mas sofrimento é de definição altamente subjetiva, você pode estar sem nenhuma dor e sofrendo muito.

 

Então o expulsivo continuava e a cada contração, eu achava que não ia aguentar a próxima. Olhava no espelho que Ana Cris estava segurando para ver se a nenê tinha coroado e depois de umas 4 contrações sem ela coroar eu comecei a falar que não ia aguentar.

 

Daí Ana me disse pra colocar o dedo na vagina, que eu já ia sentir a cabeça da nenê. Coloquei e senti mesmo, meu Deus, ela já tava chegando. Passaram mais algumas contrações e nada de coroar e coloquei de novo o dedo. Tinha baixado mais.

 

Aquilo foi uma recarga de energia, Ana Cris me falando: "tá indo super bem, daqui há pouco vou chamar a equipe porque vai nascer", foi então que durante uma contração monstra eu soltei um "Aiiiiii, Meu Deeeeeus...".

 

A Ana Paula, do outro lado da porta, levantou e já começou a se aprontar pra entrar: "chamou por Deus é porque tá nascendo".

 

A nenê já estava super baixa e eu comecei a sentir um ardido e - lembrei na hora do relato de parto da Anita - parecia que eu ia arrebentar no meio, que não ia conseguir sair. Foi então que Ana Cris saiu e chamou toda a equipe e na hora que todos eles entraram no banheiro, parecia uma legião de anjos vindo receber a Serena. Eu só pensei nisso: "Ai que bom, agora tá no finzinho mesmo.", passou um pouquinho e a cabecinha coroou, eu vi os cabelinhos dela pelo espelho e o Alex já começou a chorar. Dr. Jorge me disse então: "vai devagar agora, não faz tanta força, deixa só a contração.." Impossível,na hora você não consegue não fazer força e também nem está ligando se vai rasgar ou não, só quer que o nenê saia.

 

Então ela saiu, de uma vez, escorregou pras mãos do Dr. Jorge que falou: "que pressa". Rasgou um pouquinho, mas eu só senti um ardidinho. Serena chorou um pouco e veio direto pro meu colo, com o papai chorando no meu ombro.

 

Cabeludinha, comprida e magrinha, com mãos e pés grandes como os meus.

 

Nossa filha querida nasceu!

 

Saudável, feliz, de cara e coragem pro mundo e cercada de amor, cuidados e seres humanos maravilhosos nos apoiando. Nasceu no dia do médico, 18 de outubro.

 

Todo mundo falando parabéns pra todo mundo. E eu aqui termino falando parabéns pra vida!

 

Parabéns Alex por você ser um pai e um marido incrivelmente companheiro e amoroso.

 

Parabéns para a minha mãe, que mesmo sofrendo vendo a filha urrar de dor, soube respeitar sua opção e soube ser mãe.

 

Parabéns à equipe médica, que antes de ser uma equipe médica, é um grupo de pessoas que lutam por uma causa em que acreditam, o que os torna seres humanos diferenciados, neste mundo em que é tão fácil se deixar levar pela corrente.

 

Parabéns Serena por você ser uma filha maravilhosa, que incentivou sua mãe a ter um parto feliz e já nasceu lutando pelos seus direitos.

 

E finalmente, parabéns a "Patcha Mama" que mora dentro de mim e que mora dentro de todas as mulheres e que naquele momento, às 1h55 do dia 18 de outubro de 2005, explodiu em força, em luz, em coragem e em amor, conectando-se com toda a força do universo, que conspira a favor da vida, e trouxe ao mundo mais uma prova de que Deus continua acreditando na humanidade.

 

 

Laura Prada

São Paulo – SP

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