Panorama 2006

 

Daniela Buono

 

Dos 2,5 milhões de nascimentos registrados pela Agência Nacional de Saúde (ANS) em 2004, 88% foram atendidos pelo SUS, que praticou cerca de 27% de cesáreas. Os demais nascimentos (12%) ocorreram no setor particular de saúde, com um índice de cesarianas de 80%.

 

Esses índices são os mais altos do mundo, perdendo apenas para o Chile, que alcança 40% de cesarianas. É um número muito superior à taxa apontada como “segura” pela OMS (15%) e às taxas da Espanha (22%), Estados Unidos (20,6%), Inglaterra (19%) e Holanda (14%).

 

Um estudo de 2001, feito em quatro capitais brasileiras (Porto Alegre, Belo Horizonte, Natal e São Paulo), com 1.136 mulheres e publicado no British Medical Journal, revelou que 80% das gestantes preferiam ter suas crianças pelo parto normal.

 

A ciência está reconhecendo que embora os avanços tecnológicos e a institucionalização do parto tenham proporcionado maior controle dos riscos materno-fetais, houve incorporação de muitas intervenções desnecessárias.

 

É preciso re-significar o nascimento do Brasil e mudar a cultura do parto porque há muita violência imposta à gestante. São violências desnecessárias, vãs, vis. É preciso respeitar o ritmo natural e o simbolismo transformador do nascimento! É preciso mostrar a naturalidade com que gestação e puerpério podem ser vividos. Sem falsos alarmes, sem medo, sem a ameaça virtual de que ‘algo’ pode dar errado.

 

Com informação, as cerca de 300 mil mulheres brasileiras de classe A e B que utilizam o sistema particular de saúde poderão fazer melhores escolhas sobre os cuidados médicos que vão contratar e serão consumidoras mais conscientes.

 

Por exemplo: a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que o alívio da dor do trabalho de parto deve ser feito por meios não invasivos e não farmacológicos, como massagens e técnicas de relaxamento. Outra orientação é que a mulher em trabalho de parto fique em posição vertical e possa ter liberdade de posição e movimento. Só que essas recomendações estão longe de ser uma prática no Brasil, tanto no sistema público quanto no particular.

 

E mesmo quando se faz um parto normal são utilizados procedimentos de rotina e interferências obstétricas desnecessárias. Elas inibem o desencadeamento natural dos mecanismos fisiológicos de parto e ele passa a ser sinônimo de patologia e de intervenção médica.

 

Não surpreende que as mulheres introjetem a cesárea como a melhor forma de dar à luz. Vêem nela a possibilidade de um parto sem medo, sem risco e sem dor. Mas, a cesárea é uma cirurgia de grande porte e só deveria ser utilizada em caso de emergência, para salvar a vida da mãe ou do bebê durante o trabalho de parto. Ela oferece muitos riscos, mas se transformou num evento tão corriqueiro que a possibilidade de ter um parto normal deixou de ser prática em muitas maternidades, mesmo quando essa é a expectativa da mulher.

 

Outro fator que contribui decisivamente para que as taxas de cesáreas sejam tão elevadas no Brasil: a cirurgia, comparada ao parto normal, é muito mais rápida e acaba sendo financeiramente mais atraente para o médico, que tem cada vez menos tempo para acompanhar os trabalhos de parto em decorrência de atividades concomitantes que desempenha na prática médica.

 

Considerar as mulheres como inadequadas e incapazes de dar à luz é um problema para toda a sociedade. Assegurar que a experiência feminina do parto seja gratificante e empoderadora não é simplesmente um simpático detalhe. É absolutamente essencial porque torna a mulher mais forte e desta forma cria uma sociedade mais forte.

 

 

Daniela Buono

Mãe de Clara (parto normal hospitalar) e jornalista

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