Relato de parto de Patrícia Merlim, nascimento do Pedro

Bolsa rota e trabalho de parto demorado, mas progredindo satisfatoriamente, acabam em cesárea por falta de preparo da médica para o atendimento adequado.

 

A minha bolsa rompeu às 2h20 da manhã, às 6h30 comecei a sentir umas cólicas bem fraquinhas. Mais tarde, saímos para resolver umas coisas e voltamos pra casa 13h15, a partir daí passamos a cronometrar as cólicas. Como já fazia 12 horas que a bolsa tinha rompido, o Caco quis ligar pra médica, mas ela disse pra voltarmos a ligar quando o intervalo fosse menor. Não falamos pra ela que a bolsa estava rota, sabíamos que ela nos mandaria para a maternidade.

 

Às 18h30 ligamos de novo, as contrações estavam mais fortes, em intervalos de 5 minutos. Chegamos na maternidade 19h30, a médica não tinha chegado e as enfermeiras não sabiam nada sobre mim ou sobre o Plano de Parto.

 

A enfermeira começou a falar de tricotomia e pediu pra eu descer da maca e tomar banho (já com a camisolinha na mão).

 

Recusei. Ela nem respondeu, eu saí da sala e dei de cara com a médica entrando na recepção. Ela fez um exame com espéculo, constatou a bolsa rota, avaliou o líquido (claro, normal), não fez o toque e disse que eu estava com 2 cm de dilatação. Por isso, me dispensou, mandou voltar pra casa. As contrações seguiram mais fortes e próximas. Às 00h30 decidimos voltar para a maternidade, tava uma baita chuva!

 

O primeiro exame já não foi muito animador, em mais de 4 horas tinha dilatado 2 cm e o batimento cardíaco do Pedro estava demorando pra voltar ao normal depois das contrações.

 

Ficamos num quarto duplo, mas sozinhos. Super à vontade, deixaram água e chá, toalha de banho. Tava liberada pra fazer o que quisesse. Ficamos rebolando, andando, agachando, cantando, rindo...na medida do possível! Só entravam no quarto pra ouvir o coração do Pedro.

 

Às 3h a dilatação estava em 5 cm. Às 4h, ainda 5 cm e o batimento levou mais de 2 min pra voltar ao normal. A médica explicou que isso não era bom pra ele e que ficava mais sério por que já fazia mais de 12 horas que a bolsa tinha rompido. Eu e o Caco nos olhamos com cara de culpa, por que fazia muito mais do que isso! Então ela disse que a cabeça dele estava de lado e que talvez por isso a dilatação estivesse tão lenta. Começamos a confabular: cabeça torta + BCF caindo + bolsa rota e ela não precisou dizer nada...a palavra CESÁREA ecoava na minha cabeça. O Caco ligou pra Socorro Moreira, ela deu umas dicas e eu segui à risca.

 

A médica disse que esperaria até às 5h00 pra ver se ele virava a cabeça, se a dilatação progredia pelo menos um pouco, que se isso acontecesse a gente podia ter um parto normal um pouco mais difícil, ou um fórceps, ou em último caso, cesárea. Meu mundo caiu nessa hora, por que apesar de ela não ter dito que faria a cirurgia, NÓS sabíamos que a bolsa estava rota a mais tempo do que ela pensava. Quando ela saiu, desabei num choro tão doído, só pensava no que tinha dado errado, por que raios aquilo estava acontecendo comigo... O Caco ficou o tempo todo dizendo que ainda não tinha acabado, pra eu não me entregar, que a gente ainda tinha uma hora e as coisas podiam mudar.

 

Seguimos até ás 5h20 e ela voltou pra ver o andamento das coisas. Como estava tudo igual, ela só disse: “Sinto muito e blá, blá, blá...” Não ouvi mais nada, comecei a chorar e só parei quando voltei pro quarto, depois da cirurgia.

 

Pra quem já fez cesárea, a situação dispensa apresentação. A sensação da anestesia é horrível, o povo do CC te trata como parte da mobília, muito impessoal, frio...triste. Caco ficou comigo, falando no meu ouvido, me “avisou” quando o Pedro saiu, por que ele não chorou logo de cara. A pediatra trouxe ele pra eu ver e foi atendê-lo numa salinha ao lado, o Caco foi junto.

 

O Pedro teve sorte, tudo o que estava no Plano dele foi seguido. Menos a amamentação imediata, por causa da anestesia. Mas ele foi pro quarto com a gente e só foi embora por que eu dormi Depois disso, ele ficou o tempo todo com a gente.

 

Ficamos 48 horas na maternidade, depois do nascimento. Independente do que aconteceu, estamos bem e felizes. O Pedro é uma bênção, um bebê iluminado, calmo, bonito e SAUDÁVEL. Seria muito egoísmo da minha parte ficar mais preocupada comigo do que com ele nesse momento, afinal foi por ele que optamos por um parto normal e um atendimento mais humanizado.

 

Minha visão do que aconteceu, hoje.

 

Minha médica indicou cesárea depois do que ela acreditava ser 12 horas de bolsa rota. Este era o limite dela, mas não o meu. Eu estava com 5cm de dilatação e pronta pra seguir pelos próximos 5. Meu TP foi tranqüilo, apesar da dilatação ser lenta, as contrações estavam normais e nada insuportáveis.

 

Praticamente TUDO o que constava do meu Plano de Parto foi seguido, por isso acredito na boa vontade da médica. Mas partos não se fazem só de boa vontade, precisa ter um algo mais. É preciso acreditar na mulher e na natureza.

 

Ela tirou a oportunidade das minhas mãos, pensou somente no que era importante pra ela. Ou seja, um novo dia começava e ela não poderia ficar mais 12 horas me acompanhando... E sinceramente, durante o TP é muito difícil decidir e pensar com clareza, por isso é muito importante ter tudo muito bem negociado durante a gestação.

 

Durante a cirurgia uma conversa entre ela e o anestesista foi muito esclarecedora:

 

- Qual o motivo da cesárea, doutora?

 

- Distócia de progressão (isso nem existe)

 

- Ah, sei... (rs) mais uma?

 

- Não... com essa aqui é verdade...

 

Já passei da fase de culpá-la, mas sei que se estivesse assistida por outro tipo de profissional, o desfecho do meu TP seria outro. A responsabilidade sobre o que aconteceu comigo, é inteiramente minha, por que a escolha do profissional estava nas minhas mãos e eu dei mais importância para o que os outros queriam, do que para os meus próprios desejos.

 

Hoje, quando eu olho pra trás, quando percebo como as coisas estavam correndo bem, como eu estava tranqüila com Caco do meu lado, sabendo que meus amigos torciam por mim a quilômetros de distância e que se ela não tivesse interferido no meu processo, o Pedro teria nascido como nós sonhamos, fico pensando no que poderia ter feito pra escapar dessa fria... Acho que se fosse hoje, eu levantava daquela cama e saia andando de camisolinha e tudo....(rsss)

 

 

Patrícia Merlin

Maringá - PR

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