Relato de parto de Renata Dias Gomes - nascimento da Maiara

Grávida da primeira filha, parto natural hospitalar sem anestesia, sem episiotomia e sem laceração 

 

Entrei em TP às 9:30 da manhã do dia 19 de abril...

 

Pra quem não sabe a minha história, sou uma mãe bicho grilo que pretendia ir pra maternidade escondida de todo mundo e só dar notícias depois que minha filha estivesse no colo. A idéia de saber que alguém além do meu marido e da minha doula sabiam o que estava acontecendo e faziam alguma expectativa me deixava em parafuso. Podia imaginar a cena do meu pai e dos meus sogros nos corredores da maternidade perguntando aos enfermeiros a quantas andava meu trabalho de parto e dando alguma opinião! Não! Mil vezes não! Definitivamente preferia ir pra maternidade sem avisar nada e depois dar as boas notícias!

 

Voltando ao dia 19 de abril... Completava ali 39 semanas ou 9 meses de gestação e no mesmo dia meu maridão completava 25 aninhos!

 

Depois de escapar de um domingão de páscoa em família, entrava em trabalho de parto em outro momento comemorativo...

 

Acordei com dores no pé da barriga. Não eram cólicas e também não sentia dores nas costas. Eram apenas fisgadas no pé da barriga. Ficava de cócoras e misteriosamente a dor se esvaia! Era loucamente maravilhoso sentir aquelas dorzinhas! Maiara enfim parecia querer me cumprimentar do outro lado do mundo... De 20 em 20 minutos eu me agachava com o maior prazer do mundo e deixava a dor passar enquanto minha filha ia abrindo passagem pra sua chegada. Liguei pro médico por volta de 13:30 quando minhas dores continuavam fraquinhas e na mesma freqüência espaçada. Pediu que eu fosse até o consultório por volta de 16:30 pra uma aferida.

 

Cheguei ao consultório pontualmente e como de costume estava completamente lotado. Logo na entrada veio uma contração um pouco mais forte e eu continuava sorrindo e conversando pra espanto de todo mundo que estava aguardando . Lá pelas tantas, o médico abre a porta e me vê na sala de espera:

 

- Espero que você não esteja em trabalho de parto! Não tem vaga em nenhuma maternidade do Rio de Janeiro.

 

Pois é... Além de ser o dia do aniversário do maridão, o tal dia 19 de abril antecedia um feriado prolongado no Rio de Janeiro.

 

Resultado disso?! Todas cesáreas eletivas marcadas para aquele dia afim de que os médicos pudessem viajar em paz e gozar alguns dias de descanso.

 

Na sala de espera, minha calma impressionava. Respirava fundo quando vinha a contração, já que não tinha como me acocorar ali. Respirava, me ajeitava na cadeira e continuava animada conversando e descrevendo as sensações pros homens e grávidas presentes que estavam super interessados!

 

As 17:30 finalmente fui atendida e o toque feito. Nada de dilatação, bebê muito alto , colo bem grosso. Diagnóstico: deve demorar mais alguns dias ainda...

 

Mais alguns dias de trabalho de parto?! NÃO! Mil vezes NÃO! Eu queria ver a Maiara naquela hora se possível. Saí do consultório e fui dar uma caminhada até um shopping próximo pra tomar um açaí e procurar um chá de canela pra dar uma ajudada as contrações. Foram uns 20 e poucos minutos de caminhada até o shopping e a essa altura as contrações já estavam mais próximas. Andar aliviava as dores que ainda eram bem tranqüilas e acabei passeando bastante enquanto era parada por todas as pessoas que queriam saber como eu conseguia passear com aquela barriga e em trabalho de parto.

 

Tomei o açaí, mas nada do chá de canela. Voltei pra casa e cheguei ao mesmo tempo que minha sogra tocava a campainha com um bolinho pro filhão.

 

Entramos e a essa altura minhas contrações já estavam vindo de 5 em 5 minutos e bem mais intensas. A melhor posição ainda era de cócoras e foi assim que assisti a novela das 7: sentada no chão nos intervalos e acocorada durante as contrações.

 

Minha sogra - que passou por duas cesáreas- e meu pai -desesperado por natureza- se espantavam, perguntavam detalhes das dores e não entendiam como eu poderia estar tão tranqüila. Chegaram a cogitar ir pra maternidade, hipótese vetada por mim sem maiores explicações. Quem ia parir era eu, então que eu decidisse a hora de sair de casa e definitivamente não era naquele momento. A essa altura, eu pulava durante as contrações comemorando a futura chegada da minha filha que sentia mais perto a cada vez que as dores se aproximavam. Eta dorzinha gostosa ! Algum tempo depois, chegaram meu sogro e meu marido . Pronto, a família estava reunida, as contrações cada vez mais intensas e uma noite inteira ainda pela frente em trabalho de parto ouvindo uma super pressão pra sair correndo. Nada disso! Estava decidida a seguir meus planejamentos independente da presença de todos.

 

Fui para o meu quarto e fiquei batendo papo na internet. Meu marido anotava o intervalo e a duração das contrações e eu soltava sons durante elas pra relaxar. Quando as contrações apertaram mais e os intervalos começaram a baixar dos 5 minutos, liguei para o médico pra deixá-lo de sobreaviso e começar a caçar uma maternidade . Avisei minha doula e continuei contando meu trabalho de parto online pras pessoas. Quando vinha a contração, me agarrava e me balançava no meu marido projetando a barriga pra frente enquanto ele fazia massagens. Maravilhoso!!! As dores aliviavam, mas não passavam totalmente porque já eram bastante intensas. E quanto mais intensa a contração, mais feliz eu ficava com sua chegada: era mesmo a minha filha se aproximando. Os sons que vocalizava durante as contrações pareciam um mantra e me deixavam num misto de relaxamento e ansiedade prazerosa.

 

De vez em quando, todo esse momento mágico era interrompido por uma batida na porta do quarto.

 

- É melhor correr pra esse bebê não nascer em casa, Renata. Eu não sei fazer parto, não... Será que isso é assim mesmo?

 

Não, não é assim... E então vocês não sabiam que antes de inventarem o bisturi os bebês não nasciam?!

 

Já eram 22:30, as contrações muito fortes e eu tomei a decisão. Cantar o parabéns pra que a festa acabe e meu trabalho de parto termine no meio do mato como eu queria .

 

PARABÉNS PRA VC, NESSA DATA QUERIDA...

 

E o primeiro pedaço vai para... Maiara!!!!

 

A futura mamãe avessa aos doces aceita já que é pra filhinha... Dá uma garfada e ... Lá vem uma contração daquelas... E...

 

A BOLSA ESTOUROU!!!!!!

 

Pronto! Agora vai todo mundo comigo pro meio do mato

 

Liguei pro médico, as contrações subitamente aliviaram depois que a bolsa estourou e me foi dito pra ficar em casa pra desespero geral e minha felicidade que continuava trancadinha no meu quarto recebendo massagens do maridão .

 

Ah, claro que isso foi depois de um banho quentinho com várias batidas na porta que só faltavam perguntar se eu não estava vendo o cabelinho.

 

Depois de algumas horas, as contrações voltaram a apertar um pouco e pedi à minha super doula que viesse aqui pra casa. Quando a Vitória chegou, já não dava pra saber direito quando começava uma contração e terminava a outra. A única coisa que eu conseguia fazer era andar freneticamente enquanto meu marido me seguia tentando acompanhar o passo e fazer massagens.

 

Já se iniciava a madrugada do dia 20 e meu único receio era chegar à maternidade e ouvir que ainda tinha 1 cm e demoraria muito. Avisei ao médico que estava indo e ele conseguiu vaga no lugar que eu queria! As dores eram muito fortes e já não tinha tempo pra descansar. Foi quando a Vitória fez a promessa: não se preocupa que chegando lá a gente faz a mágica pra andar tudo rapidinho.

 

No caminho, ainda vieram muitas contrações que foram aliviadas com muita massagem e bom astral. Eu estava muito feliz de estar saindo pra conhecer minha gatinha!

 

Cheguei e fui encaminhada ao quarto com a Vitória e meu marido com direito a "biquinho" de quem ainda tinha alguma esperança de acompanhar tudo.

 

Antes da primeira contração já no quarto, recebi de "presente" a camisolinha da maternidade que foi na mesma hora descartada.

 

- Eu não vou usar esse troço , não porque não vou ficar com a bunda de fora!

 

Coloquei meu robe e e me apoiei de 4 na cama do acompanhante pra mais uma contração. Lipe e Vitória pendurados em cima de mim massageando minhas costas e a porta se abre. É A PLANTONISTA.

 

- QUE ISSO?!

 

- Acabou de vir uma contração e assim eu fico mais confortável...

 

- E como é que você quer que eu te examine?

 

- Eu vou ter que ficar muito tempo de barriga pro alto?

 

- Claro que sim!

 

Veio uma contração e eu relaxei soltando sons. Isso é importante e ajuda também a relaxar útero e vagina. É essencial deixar a boca toda solta, sem trincar os dentes...

 

Ao ouvir, reclamou:

 

- Não faz isso que você vai cansar sua garganta e não vai ter força na hora! Quando vier a contração, você faz força pro bebê sair que vai te ajudar. (eu, hein, alguém me diz da onde ela tirou isso?! )

 

Ah, coitada, mal sabia ela que tava falando com a louca do quarto 216 devidamente acompanhada pelo médico louco que assiste partos normais.

 

Deitei de barriga pro alto pra ser examinada pela "Besta-Fera" e lá veio o diagnóstico depois de ouvir o coração e me tocar: 4 cm...

 

E FOI AÍ, AS 2 HORAS DA MANHÃ, QUE COMEÇOU A MÁGICA!

 

Durante as contrações, além de fazer massagens e me ajudar a procurar posições de alívio, Lipe e Vitória faziam um tipo de hipnose conversando com meu útero enquanto eu continuava soltando meus sons, claro! Eu que não ia ficar fazendo força sem querer!

 

- Essa contração vai ser intensa, eficiente e vai fazer dilatar bastante...

 

Fiquei entre 30 e 45 minutos ouvindo esse tipo de frase, mas sem conseguir prestar atenção conscientemente porque as contrações eram muito intensas! As massagens maravilhosas eram feitas na direção dos meus quadris pra ajudar a "abrir passagem".

 

E de repente eis que chega ela, vigorosa, intensa e louca: a tal da vontade de fazer força!!! Comecei a sentir uma fortíssima vontade de evacuar, mas era o bebê querendo passar!!! O expulsivo é a melhor parte do trabalho de parto! As contrações espaçaram pra me dar tempo de descansar e conseguir empurrar o bebê e ficaram menos doloridas. Quando vinham, eu sentia a vontade, fazia força e não sentia dor nenhuma!

 

Eram entre 2 e 2:45, o médico ainda não tinha chegado e eu fazendo a força... Vitória me deu um argumento fortíssimo pra controlar: você não quer que esse bebê nasça com a plantonista, né?!

 

MIL VEZES NÃO!

 

Começaram um outro tipo de massagem. Movimentos redondos nas minhas costas controlaram um pouco até a chegada do médico as 3:00 da manhã.

 

Um toque, uma ouvidinha no coração e a melhor notícia: 9 cm!

 

Processo todo... As 2:00 eu cheguei com 4 cm e em uma hora de muita caminhada, variação de posições, massagem e hipnose já eram 9.

 

- Mário, não acredito! São 9 mesmo? Não acredito!

 

- Não, tem um só... Tô falando que tem 9... Vou subir pra preparar a sala!

 

E cada contração e cada força eu ia sentindo Maiara passando... Que delícia! Sem anestesia, o próprio corpo se encarrega de produzir hormônios pra guiar o parto e eles me deixaram como bêbada. Não tinha mais nenhuma censura e nem muita noção do que falava.

 

Chegou o maqueiro pra me levar . Meu marido esqueceu a câmera no quarto. O maqueiro dá uma paradinha e tome esporro:

 

- ANDA LOGO, ANDA LOGO, EU NÃO QUERO FICAR DE BARRIGA PRO ALTO! ANDA QUE O BEBÊ VAI NASCER!

 

Às 3:20 já estava na sala de parto. Nada de ar condicionado , umas paredes verdes e disformes, uma cama que não parecia em nada com a de um centro cirúrgico, luz baixinha e um armário que ocupava quase todo espaço junto com 3 balões de oxigênio que a pediatra pediu que fossem retirados pra colocar seu material de trabalho.

 

Uma enfermeira chega perto e a bêbada - mamãe conta sua aventura...

 

- Tô com vontade de fazer coco. E sabia que pode acontecer porque eu não fiz lavagem?! Se eu fizer coco não tem problema, né? Também não tomei anestesia, não fui raspada...

 

Ah, coitada da mulher que teve que ouvir toda minha ladainha. Mas que ela ficou com cara de espanto, ficou! Acho que ninguém por ali costuma ficar doidona assim...

 

Mais uma ouvidinha no coração e tudo ok. Um toque, uma contração e fui orientada a fazer força pro bebê chegar à portinha enquanto alguém montava a cadeira de cócoras que tava por lá encalhada.

 

- Corre aqui pra ver uma coisa.

 

Meu marido foi chamado pelo médico...

 

- Nossa, ela é cabeluda...

 

Coloquei os dedos e pude sentir o cabelinho coroando.

 

Mais uma contração puxando o braço do médico pra me equilibrar sentada e um esporro.

 

- Renata, assim eu vou ficar sem mão pra amparar o bebê.

 

Os braços do médico foram substituídos pelo do seu filho e assistente e do meu marido.

 

E tome esporro no filho do médico:

 

- Deixa o braço duro senão eu não consigo levantar! Quer que minha filha nasça comigo deitada e me rasgue toda?!

 

Não, ele não tinha como responder à louca do quarto 216...

 

Cadeira de cócoras quase montada, bebê na posição, mais uma vontade de fazer força o maridão pega a câmera e...

 

TUDO PRETO! DESMAIOU!!!!!

 

Cadeira montada, fui colocada ali enquanto o médico acudia meu marido na sala ao lado.

 

Mais uma vontade de fazer força e...

 

- MÁÁÁÁÁÁÁÁRIO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

O médico chega correndo, se posiciona e a vontade passa...

 

- Olha pra cá, Renata.

 

- Não, agora tô sem vontade...

 

- Olha pra cá, rápido.

 

- Não, agora eu não quero...

 

- OLHA PRA CÁ, PORRA!!!!!!!!!

 

Desci os olhos e lá estava ela, metade dentro metade fora do meu corpo, branquinha, sujinha, pequena, linda e cabeluda!!! A maior emoção da minha vida: amparei a saída da minha filha ainda dentro de mim e trouxe para o meu peito. Reconhecimento e paixão a primeira vista.

 

O pai ainda tentou voltar pra cortar o cordão, mas ficou tudo preto outra vez...

 

Não levei pontos, Maiara mamou imediatamente e os primeiros exames foram feitos em cima de mim. Em seguida o pai a levou para ser pesada e medida enquanto eu voltava para o quarto. Novamente o maqueiro.

 

- Ih, eu quero voltar andando!

 

- Renata, você tá sangrando e com a bunda de fora (é, pra ir pra sala de parto eu tive que vestir aquele troço).

 

TÁ, TUDO BEM! AÍ JÁ É DEMAIS MESMO . Com a bunda de fora eu não ando.

 

Desci pro quarto contando pra ele que não fui raspada, não fiz lavagem, não tomei anestesia, não fui cortada, não levei pontos e que também não fiz coco.

 

PS: Pra quem achou estranha a descrição da sala de parto, vale a explicação. Depois vim saber que Maiara nasceu numa espécie de quartinho de entulho que é onde fica encalhada a cadeira de cócoras.

 

 

Renata Dias Gomes

Rio de Janeiro – RJ

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