Relato de parto de Rosana Oshiro, nascimento da Sarah

Marido é impedido de acompanhar a parturiente na sala de pré-parto e ela opta pela cesárea

 

Logo que me casei deixei o anticoncepcional de lado. Casamento para mim era para gerar família e se eu e meu marido estávamos começando a constituir uma, que fosse na hora que “Deus quisesse”.

 

No quarto mês de casamento, noite de 14 de setembro de 2001, eu me lembro como se fosse hoje, que me sentia um furacão, ou melhor, a própria Hilda Furacão. Quando meu marido chegou do trabalho, eu o recebi com a frase:

 

– É hoje que faremos nosso primeiro filho! Então, vamos caprichar!

 

Ele deu risada, e a noite foi maravilhosa!

 

No mês seguinte, como era rotina, minha menstruação atrasou e eu nem esquentei, pois estava acostumada, porém, comecei a ter fortes cólicas diariamente, e nada de a danada vir.

 

Fiquei uma semana sentindo cólicas e nada, comecei a sentir dores nas pernas e nos seios, o apetite aumentou e eu resolvi fazer o BHCG: Resultado: NEGATIVO. Era 11 de outubro, véspera de feriado, fiquei meio frustada, mas tudo bem.

 

Passei o fim de semana todo sentindo cólicas e dores, e na segunda-feira pela manhã nem fui trabalhar. Fui ao pronto-socorro e pedi para o médico me receitar algo para minha menstruação vir, já que não estava grávida, pois as cólicas estavam me matando!

 

Ele me pediu pra repetir o exame na mesma hora e pegar o resultado, que ficou pronto duas horas depois. Resultado: POSITIVO.

 

Fiquei tão feliz! Liguei para minha mãe e em seguida para o meu marido, que não pôde me atender. Então, deixei o recado com a chefe dele: “avisa que ele será papai, está bem?”. A mulher não entendeu nada.

 

Consultei um ginecologista, pois as cólicas podiam ser indicação de aborto, comecei a tomar medicação para segurar a gravidez e fiquei uma semana em casa, de repouso.

 

No começo tinha MUUUUITA FOME e SONO e logo comecei a engordar. Tive pouco enjôo, só não comia feijão e doces, que me embrulhavam o estômago.

 

No início do terceiro mês de gestação tive um pequeno sangramento, fui ao médico, que constatou descolamento da placenta e me deixou de repouso por 10 dias. Depois tudo correu normalmente, tirando a sonolência e a fome ferozes.

 

Fiz a assinatura de uma revista sobre gestação e cuidados com o bebê, com a qual obtive muitas informações preciosas sobre amamentação, parto, doenças, decoração de quarto, etc.

 

O médico com quem fiz o pré-natal sempre respondia minhas questões, que não eram muitas. Sobre o parto: eu só saberia na hora, pois seria atendida em pronto-socorro do convênio.

 

Visitei os possíveis hospitais onde poderia ter minha filha, em Mogi das Cruzes: hospital Ipiranga e Santana, onde achei o atendimento muito frio. Em Suzano, município vizinho, o único hospital que atendia pelo convênio era o Campos Salles, um açougue, que eu nem quis visitar. Fui conhecer o Sepaco, na Vila Mariana (na capital paulista), e achei que seria um bom hospital.

 

Fiz curso de gestante, conheci a maternidade, falaram da parte fácil do trabalho de parto e que poderia ter meu marido como acompanhante. Achei que estava de bom tamanho, em relação às outras opções que eu tinha, e decidi que teria minha filha ali.

 

Quando estava na 40ª semana de gestação, segundo o ultra-som e o médico, tirei minha licença-maternidade e passei a ficar em casa aguardando o grande dia.

 

Passou uma semana e nada. Duas semanas e nada. Até que...

 

O grande dia

 

Acordei na quarta-feira, 18 de junho, sentindo cólicas fraquinhas e pensei (como já fazia há alguns dias): “será que é hoje?”.

 

Tomei um banho, um café bem leve e fiquei na maior ansiedade até a hora do almoço, quando me deu um estalo: decidi ligar para a maternidade e perguntar se poderia ir para lá, para que eles me examinassem e me dissessem o que fazer.

 

Liguei no serviço social e já comecei a chorar, eu tinha muito medo de perder minha filha, pois minha irmã tinha perdido um bebê fazia um ano, supostamente porque ela tinha passado da hora de nascer. A atendente me disse para ir à maternidade e levar minhas coisas, pois já estava na 42ª semana, e que de uma forma ou de outra, ficaria internada.

 

Fui de carona com minha prima, minha mãe e minha sogra, de mala e cuia, rezando o rosário inteirinho, pedindo a Nossa Senhora do Bom Parto para que desse tudo certo e que eu não perdesse minha filhinha.

 

Cheguei ao hospital por volta das 15h, meu marido já estava lá me esperando. Entrei no pronto-socorro e a médica que me atendeu fez um exame de toque superdolorido e falou:

 

– É, você já tem 1 cm, vamos fazer outro exame.

 

Ela fez o exame, algumas contas no papel e disse:

 

– Bom, você pode fazer assim: te ponho no soro e a gente vê... se você tiver dilatação, tudo bem, senão vamos fazer a cesárea de qualquer jeito pois já está passando da hora, você decide...

 

Perguntei se poderia ficar com meu esposo durante o trabalho de parto e ela disse que não, porque a sala de pré-parto estava muito cheia e seria constrangedor para as outras mulheres.

 

Pensei: “puxa vida, já pensou se fico aqui, sofrendo por horas, e depois tenho que ir para a faca? Se for para cortar, então corta logo”. E perguntei para a médica:

 

– Se for cesárea, meu marido pode assistir?

 

Ela respondeu que sim.

 

Tudo o que eu queria naquela hora era uma boa companhia, de preferência a do meu esposo, e falei para ela:

 

– Vamos fazer a cirurgia então.

 

A enfermeira veio checar se eu já havia feito a tricotomia, como eu estava “suuuuper bem informada”, já tinha feito. Em meia hora o anestesista veio, me deu a anestesia e me deixou no centro cirúrgico, sem roupa, nem nada, por mais meia hora, pois a médica estava terminando outra cesárea.

 

Eu me sentia uma “morta-viva”, só sabia que estava viva porque via na “telinha” meu batimentos cardíacos com o desenho de um coraçãozinho, quando por fim vieram todos da equipe médica para começar o ‘parto’. Logo que começaram os “procedimentos” na mesa de cirurgia, colocaram um pano para eu não ver o que estava acontecendo, o que me deixou MUITO frustada, pois nem o momento do nascimento de minha filha não me seria permitido ver, sei lá por quais motivos, mas nem quis questionar, afinal, eles estavam fazendo a cirurgia para o meu bem e o de minha filha (assim eu pensava).

 

Meu marido entrou, segurou minha mão esquerda, que estava amarrada com um “treco” no meu dedo médio, e falou que estava muito ansioso e feliz. Eu também estava, afinal, minha filha em poucos minutos estaria ali comigo.

 

Eram 18h13 de 18/06/02 quando a Sarah veio ao mundo.

 

Eu senti uma tontura horrível, parecia que ia morrer, quando escutei seu chorinho, e pensei: minha filha nasceu e eu não estou sentindo nada! Nem minhas pernas nem meus braços, mal consigo respirar... Uma lágrima escorreu em meu rosto de tristeza e alegria ao mesmo tempo, ainda ouvi a enfermeira me dizer: “Olha sua filhinha!!!”, mas eu nem vi o rosto dela, só vi um vulto e apaguei.

 

Meu marido ainda foi lá, viu a pediatra limpá-la, pegou-a no colo um pouquinho e depois saiu.

 

Quando acordei eram 20h e ainda estavam todos lá fora, já tinham visto minha filha pela janelinha e me acompanharam até o quarto. Em seguida, a enfermeira entrou e pediu que fossem embora, pois havia terminado o horário de visita. Eu me lembro de sentir uma coceira horrível e pedir alguma medicação, a enfermeira me trouxe uma injeção e apaguei de novo. Acordei com a enfermeira me chamando para um banho e para eu comer alguma coisa, eram 00h30, levantei-me meio tonta e sentindo um formigamento nas mãos e nos pés, mas consegui me lavar e comer algo.

 

Deitei e fiquei pensando na minha pequena, será que ela estava bem? A enfermeira disse que sim e que pela manhã ela viria. Logo voltei a dormir, mas ainda com a coceira... Às 6h30 acordei com o chamado da enfermeira me perguntando se estava tudo bem, se eu estava com fome, eu disse que sim. Ela me ofereceu água e o café da manhã, que devorei em minutos (estava em jejum há 24 horas praticamente), foi quando escutei um chorinho e o barulho de um carrinho vindo pelo corredor. Naquela hora meu coração disparou, pois eu sabia que era minha filhinha.

 

Veio para o meu colo e eu fiquei ali, embasbacada, hipnotizada, enfeitiçada.

 

Ouvi a enfermeira me dar algumas dicas de amamentação, mas nem sei direito o que ela disse, ter minha filhinha pela primeira vez em meus braços era tudo o que eu queria. Eu chorei de alegria e emoção e beijei-a docemente, a chamei pelo nome:Sarah! Ofereci-lhe meu seio, no qual ela grudou e não largou durante uma meia hora.

 

Na maternidade, aprendi a dar banho, cuidar do umbigo, a posição correta para amamentá-la, exercícios para as cólicas, entre outras coisas, o que me ajudou bastante no começo. Dois dias depois eu fui para casa e daí vieram outras dúvidas e dificuldades, que fui superando com a ajuda de meu esposo, de amigas e familiares.

 

Um fato que me deixou surpresa, depois de um mês de vida de minha filha, foi que, ao voltar para consulta com o ginecologista, este me questionou: por que eu não esperei o parto normal, se cheguei ao hospital com 3 centímetros de dilatação? Nesse dia, eu percebi que não se pode confiar em plantonista de hospital e que eu também não sabia muita coisa sobre parto. Só em minha segunda gestação comecei a pesquisar mais, porém, essa já é outra estória.

 

Eu sei que tornar-me mãe, pela primeira vez, mesmo que não tivesse sido do jeito que eu queria, fez com que eu me sentisse uma nova pessoa!

 

 

Rosana Oshiro

Mogi das Cruzes - SP

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