Relato de parto de Rosana Oshiro, nascimento do Rafa

Com cesárea anterior, bolsa rota e trabalho de parto no início, Rosana teve atendimento negado na Casa de Parto e foi confrontada no hospital onde deu à luz.

 

Quando soube de minha segunda gestação, fiquei muito feliz. Minha primeira filha estava com 10 meses e eu queria dar-lhe um irmão com pouca diferença de idade. Ela nasceu de cesárea, pois eu estava na 42ª semana e a médica que me atendeu no pronto-socorro (eu estava sem dor, mas já estava em TP com 3 cm) me disse que estava passando da hora e era melhor fazer a cesárea e bla bla blá. Nem discuti.

 

Já nesta segunda gestação, eu fui me informar melhor e encontrei o site Amigas do Parto. Conheci a Ana Cris e os relatos de mulheres de coragem que lutaram e conseguiram um parto normal depois de cesárea. Achei maravilhosa a idéia de um parto em casa e sem intervenções, e a Ana Cris me indicou a Vilma Nishi.

 

Eu a procurei para conversar e falei que queria fazer um parto normal em casa, embora as minhas condições financeiras estivessem difíceis. Perguntei se não haveria uma outra opção, para não ter que pagar o parto por fora, pois meu convênio não me reembolsaria, e a ela me falou que outra opção seria a casa de parto no Itaim Paulista, que era perto de minha casa. Eu fui conhecer a casa de parto e simplesmente AMEI o lugar. Decidi que era o lugar prefeito para ter meu filho.

 

Durante algum tempo eu ainda conversei com meu esposo, que na época estava desempregado e falei que tinha medo de as coisas não darem certo na casa de parto, que poderíamos conversar com a Vilma para fazer um parcelamento, mas não cogitei isso com ela.

 

Ainda me lembro de ligar para a Ana Cris e perguntar o que eu poderia fazer. Ela, com toda sua doçura, me disse: “Se eu fosse você, Rosana, abriria mão de carro e qualquer outra coisa para ter o parto dos meus sonhos, do meu jeito, pois me arrependo amargamente de não ter tido o meu. Esse parto não é um sonho pra você? Então abra mão de algumas coisas e realize-o!”.

 

Eu realmente fiquei entre a cruz e a espada: meu esposo, por um lado, não me encorajava, principalmente por estar desempregado, por outro lado, eu queria falar com a Vilma, mas tinha vergonha de pedir para fazer um carnê das Casas Bahia, então acabei desistindo.

 

Fiz o pré-natal com a Vilma, que não me assistiria no parto, mas me indicou a Maria, uma colega de profissão que me atenderia na Casa de Maria (casa de parto do Itaim Paulista).

 

Cheguei à 37ª semana muito bem e comecei fazer o acompanhamento na Casa de Parto, uma vez por semana, com a Maria, e cada vez que eu ia lá ficava imaginando como tudo seria maravilhoso.

 

Para ter meu filho lá, eu não poderia ter nenhum problema na gestação e no pré-parto, a cesárea anterior era empecilho já resolvido previamente entre a Vilma e a Maria, que disse que não haveria problema.

 

Quando cheguei à 39ª semana e 2 dias de gestação, lá pelas 5h00 da manhã acordei com um estouro dentro de mim e cheguei a levar um susto: será que minha bolsa havia rompido?

 

Fui ao banheiro e fiquei sentada lá um pouquinho, esperando. Eu senti o líquido escorrendo bem devagar e tive certeza de que era a bolsa.

 

Chamei meu esposo e pedi que ele ligasse para a Casa de Parto e falasse com a Maria (que nesse dia deixaria o plantão às 7h00), para saber o que eu poderia fazer. Ela prontamente disse para eu ir para um hospital do meu convênio, pois meu bebê não poderia nascer lá! Fiquei totalmente frustrada e comecei a chorar.

 

Na mesma hora liguei para a Vilma, que me falou com toda a sua paciência e sonolência (coitada!):

 

– Rosana, descansa! Quando começarem as contrações mais fortes, mais tarde, você pode ir para a casa de parto, pode ser que eles te recebam.

 

Então, comecei a andar: fui à padaria, voltei, preparei o café, depois fui ao supermercado, fiz algumas tarefas em casa e as contrações começaram, não fortes, de 10 em 10 minutos, duravam menos de 1 minuto.

 

Eram 13h00 quando avisei minha mãe que minha bolsa havia rompido e ela me mandou ir logo para um hospital.

 

Eu liguei pra Vilma de novo e ela me disse que estava cedo para ir para o hospital, que deveria esperar o TP evoluir. Eu poderia até ir para a casa de parto para ver como estava a evolução, pois de repente poderia ficar lá.

 

Disse-me também que antes de ir poderia ficar de quatro no chuveiro, tomar chá de gengibre com canela, andar um pouco, enfim tentar fazer o TP evoluir ao máximo.

 

Eu já estava meio desesperada naquele momento, com tantas dúvidas e incertezas, e perguntei para a Vilma se ela poderia vir. Não falei: “Venha me ajudar!” ou “Vem fazer meu parto?”. Deixei uma interrogação no ar, pois eu estava perdida, sem saber o que fazer e comecei a chorar.

 

Ela me disse que a essa altura do campeonato não poderia ir fazer meu parto em casa, pois sem preparar o ambiente, etc., não dava mesmo e que a minha proposta inicial, quando fui procurá-la, era de ter meu filho na casa de parto, o que realmente era verdade. Além disso, ela nunca tinha ido me visitar, como costuma fazer quando atende um parto em casa. Realmente era complicado!

 

Mas quem disse que uma mulher que está pela primeira vez vivendo seu TP consegue raciocinar e entender alguma coisa ? Uma enxurrada de emoções vem em cima de você de uma única vez!

 

Naquele momento, eu fiquei desapontada com ela, que era uma pessoa especial pra mim. Até pensei que fosse por causa do dinheiro, só depois de muito tempo eu percebi que não era, porém, isso demorou pra ser digerido.

 

Então, ela me disse:

 

– Vai para a casa de parto, Rosana, para você ficar mais tranqüila, e vê o que acontece, tudo bem?

 

Eu me recompus e fui lá, maaaas...

 

– Não, você tem cesárea anterior...

 

– Não, você só tem 1 cm...

 

– Não, a Maria falou para você ir para o hospital do seu convênio...

 

– Não... Não... E não...

 

Eu comecei a chorar e perguntei para a moça quais opções eu teria se fosse para o hospital e ela me falou:

 

– Ou vão te colocar no soro e esperar um pouco ou vão fazer a cesárea...

 

Nesse dia parecia que tudo e todos estavam contra mim. Então, eu voltei para casa e minha mãe novamente ligou e me mandou ir pra um hospital. Eu comecei a ligar para as maternidades mais próximas de minha casa que estavam na lista do convênio e perguntar se meu esposo poderia ficar junto comigo, como eram os procedimentos e tal, mas nada parecia que seria pelo menos razoável e eu comecei novamente a me desesperar:

 

– Meu Deus, me dê uma luz!!!

 

Uma amiga me liga e me dá o maior sermão:

 

– Você está perdendo água! O nenê vai ficar sem água e vai morrer! Vai logo para o hospital e bla... bla... blá...

 

Liguei para a Vilma de novo e ela me falou:

 

– Vai para o hospital, Rosana, conversa com eles, pois, no máximo, eles vão te dar antibióticos por você estar mais de 10 horas com bolsa rota... Procura se mexer, ficar no chuveiro, para o TP evoluir.

 

Eram 15h00 e lá fui eu para o hospital Ipiranga, em Mogi das Cruzes, que dos quatro para os quais eu liguei, pareceu o melhor. A médica, plantonista, demorou uns 40 minutos pra me atender, pois estava fazendo um parto normal. Aquilo já me deu esperanças.

 

Ela me atendeu bem, mesmo sendo meio fria. Conversou comigo e disse entender minhas vontades, mas falou:

 

– Aqui você não terá parto humanizado, eu te ajudo com acupuntura e vou colocar o soro para ritmar as contrações, é o que posso fazer...

 

Ainda deixo teu esposo ficar com você um pouco na sala de pré-parto. Você pode ficar no chuveiro quanto tempo quiser e se movimentar, comer e beber água não pode, tudo bem? Ou então, se você quiser parto humanizado, vá para o Santa Marcelina, no Itaim Paulista, lá você poderá ter um parto mais perto daquilo que você quer.

 

Como a Maria, pela manhã, já havia me dito que o hospital estava com problemas nas instalações do setor neonatal e disse para eu ir para um hospital do meu convênio, pensei: “Não vou ficar pulando de galho em galho, ou melhor, de hospital em hospital, então vamos lá! Seja o que Deus quiser!”.

 

Essa médica que me atendeu foi até bacana, pois me colocou as agulhas de acupuntura e ficou lá, segurando minha mão, marcando o tempo das contrações durante algum tempo, e isso me ajudou a progredir no TP.

 

Às 19h00 as dores começaram a ficar mais fortes, eu estava com 6 cm, a primeira plantonista foi embora e entrou a segunda, que fez o toque e saiu da sala. Eram cerca de 22h00 e eu pedi ao meu esposo para conversar com a médica, pois as dores estavam insuportáveis.

 

Ele foi e voltou e disse que a médica me traria um B_. Eu estava morrendo de sono e dei um cochilo entre uma contração e outra.

 

De repente, uma contração muito forte veio, eu cheguei a sentir o Rafa descendo bem e passando pelos quadris, foi quando dei um grito desesperador: “Meu Deus, eu vou morrer!”.

 

A médica entrou na sala com a enfermeira, expulsou meu marido de lá e começou a me encher o saco dizendo que era um absurdo eu ter feito pré-natal com uma enfermeira obstetra, que aquilo era loucura, que não tinha sentido, que era contra a lei, que eu poderia processá-la, que eu só tinha gastado meu dinheiro...

 

Eu morrendo de dor e ela enfiando o dedão em mim no meio da contração. Peguei o dedo dela e torci de tanta dor e tanta raiva que estava sentindo. Eu nem conseguia falar. Ainda ouvi seu sussurro: “Está quase total”. Mas eu não estava raciocinando direito e pedi:

 

– Doutora, um pouco de anestesia, por favor.

 

Ela me disse que não podia. Pedi água, pois estava com muita sede, e ela disse que não podia, estava morrendo de fome e ela não me liberou nada.

 

As dores estavam cada vez mais fortes, eu com o soro na veia, sozinha naquela sala de pré-parto, e ela só repetindo “Não pode, não pode, não pode”.

 

Ainda me falou:

 

– Você não queria um parto normal, isso é um parto normal, ninguém te avisou? A TUA ENFERMEIRA TE ENGANOU! Ela não disse para você que era assim? Ela te enganou!

 

Eu fiquei puta e gritei com ela:

 

– Como você sabe que é assim? Quantos filhos você tem?

 

Ela não respondeu e saiu da sala.

 

Eu não estava mais agüentando tudo aquilo e pedi:

 

– Pelo amor de Deus, me faça uma CESÁREA!

 

Trinta minutos depois meu filho nasceu...

 

Como fiquei frustrada depois! Passei dias e semanas chorando por não ter conseguido. Nem tinha coragem de ligar para a Vilma nem para a Ana Cris nem de fazer meu relato, tudo tinha sido um sonho que eu jamais realizaria.

 

Quero pedir perdão às duas por ter sumido na época, sem deixar noticias, saí do grupo de fininho e nem falei nada.

 

Eu só estou digerindo agora tudo isso porque estou grávida de novo e vejo uma luz no fim do túnel.

 

Ainda há esperança e eu vou correr atrás do meu sonho!

 

Um beijo a todos que chegaram até aqui e obrigada pela paciência!

 

 

Rosana Oshiro

Mogi das Cruzes – SP

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