Relato de parto de Vanessa Strauss, nascimento de Heloisa

Vanessa nos revela um pouco dos temores e fraquezas e ressalta a importância de uma assistência humanizada e da presença do marido durante o trabalho de parto.

 

Contrações durante todo o dia.... às 0hs36 elas começaram a ficar regulares de 5/5 minutos. Liguei para a doula Ana Cris e fui para a Casa de Parto de Sapopemba (São Paulo), fiz um exame de toque – 2 cm de dilatação!!!! Perguntaram se eu gostaria de ficar lá ou voltar pra casa. Como a Casa estava vazia, resolvi ficar!! Melhor coisa! Fui muuuito paparicada. Chazinho, cafezinho, pãozinho, bolachinha, carinho... tudo de bom!!!

 

As contrações foram se intensificando e meu marido e a Ana Cris se revezavam na massagem.Contrações – massagem – e logo em seguida, cara de paisagem, como se nada tivesse acontecido!!!

 

Entrei na banheira, as contrações ainda estavam suportáveis, falava besteira, ria. De repente fomos para o corredor e uma das obstetrizes (que é um amor de pessoa), embora me tratasse muito bem, começou a me irritar! A Ana Cris olhou para mim e disse “ vc está com cara de transição” (momento do Trabalho de Parto onde as contrações começam a se intensificar).

 

Não conseguia olhar para a mulher. Incrível como toda hora que ela vinha falar comigo eu estava tendo contração. Tinha vontade de pular no pescoço dela. Até que eu, dentro da banheiro, ouço dela: “que gostoso, hidromassagem, chazinho, carinho.. quer trocar de lugar comigo?”. Fui enfática e com o cenho franzido retruquei: “QUERO!!! SÓ ME DÁ O BEBÊ DEPOIS!!!”

 

O tempo foi passando, o quadro não evoluía. Sentia minhas forças se exaurirem, não suportava mais o peso do meu corpo. Fui tomada pela frustração. Havia tempos estava de quatro, fazendo força e não sentia evolução, nenhuma mudança. Tentava todas as posições e nada. Já tinha mudado o plantão e eu de quatro no chuveiro, comecei a bater a cabeça na parede, frustrada gritava pra Ana Cris: “Eu não agüento mais, eu quero anestesia, quero cesárea, um precipício... me tira daqui... “

 

Como o quadro não evoluía, a obstetriz fez novo exame de toque e detectou bossa (detalhes no final do relato). Pediu pra montar a cama obstétrica imediatamente. Entrei em pânico! Aquele era meu pesadelo!!!! Olhava para Ana Cris com cara de cachorro de rua em dia de chuva: ” Ana Cris, se eu for para o hospital o que vai acontecer? “ “Fórceps” “Mas tem anestesia?”.

Veio o soro (descobri depois que era só glicose pq estava enfraquecida), fui tomada de tamanho ódio pela parteira que tudo sumiu. não existia mais doula, marido, auxiliar, nada.. só eu, ela e os remos.... a cada força que eu fazia era um soco que eu dava na cara dela. Usei isso como recarregador de energias! De repente ouvi meu marido falando “Tô vendo a cabecinha!”. A Ana Cris pegou o espelho e me mostrou... Pronto! Meu mundo mudou! Me foquei totalmente no bebê....Aquilo queimava!!! Mas ela estava chegando!!! A cabecinha saiu... a parteira me olhou e disse “quer ir para o hospital agora? “ “ Sim, eu vou de perna aberta” e me concentrei de novo... Senti os ombrinhos saírem e de repente... NÃO TINHA MAIS DOR!!!! Me concentrei em sentir o resto do corpinho sair... os pezinhos..... e a vi! Inteirinha nas mãos da parteira, roxa, ensaguentada, mas linda!!!!!

 

Ela veio mamar, meu marido cortou o cordão e eu tremia: “minha filha, nasceu, eu consegui, Ana Cris, eu consegui!”

Aí a placenta saiu e eu fiquei com minha pequena no colo. Levaram-na pra pesar enquanto a parteira (que de repente virou um amor) dava os 7 pontos da laceração. Eu olhava para a Ana Cris e não sabia se agradecia, chorava, sorria, ou simplesmente olhava.

 

Na manhã seguinte, eu já estava em pé ajudando as meninas da Casa de Parto a fazerem os lanches para a festa de aniversário da Casa. Eu e a Matilde (a parteira) ríamos do dia anterior. Ela me abraçava e dizia que embora tivesse que manter a postura, tinha ficado emocionada de ver que eu mesmo amedrontada, lutava para dar à luz à minha filha!!! 

Só tenho à agradecer ao pessoal da Casa, ao meu marido que foi meu porto seguro durante todo o tempo e à doula Ana Cris, que me segurou e me levantou nos momentos difíceis.. Lembro que quando eu realmente decidi fazer força e deixar o medo de lado, foi quando ela me disse.. “Conhece o f*da-se? Vai ter que sair, então deixa doer... F*da-se!” Foi realmente uma motivação pra eu continuar....

 

Meu trabalho de parto foi realmente muito dolorido, minha filha nasceu virada (normalmente nascem olhando para nosso bumbum, ela nasceu olhando para cima). Tive 14 horas de trabalho de parto ativo, tive parada de progressão e já nos últimos momentos, estava muito enfraquecida e comecei a potencializar e lutar contra a dor. Nessa hora pedi anestesia, cesárea, machadada na cabeça sim, mas não só faria, como farei tudo novamente! Agora, grávida de 4 meses, planejo meu parto novamente na Casa de Parto onde fui tão bem acolhida e pude realizar um de meus maiores sonhos: ser mãe!

 

Observação final - Bossa é um encompridamento da cabeça do bebê resultado do esforço do corpo em se moldar ao canal vaginal para sair. É comum e tende a desaparecer em algumas semanas.

Vanessa Strauss

Osasco - SP

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